Dia 18 – Belém: belezas e riquezas – Parte 1


Acabou enfim nossa última noite a bordo do Catamarã Rondônia, estávamos em Belém. O navio que havia sido nossa morada pelos últimos 5 dias, agora enfrentaria mais uma vez, a forte correnteza contrária do Amazonas para voltar até Manaus, de onde partiu.

Acordamos as 05:30. Maeda foi tomar banho, então aproveitei o início da luz da manhã para dar a última volta no navio. Consegui uma das sensações mais estranhas de toda a viagem, um sentimento que sinceramente, ainda não sei como classificar. Com os motores desligados e com quase ninguém a bordo (a maioria das pessoas havia desembarcado na noite anterior), o silêncio total imperava. Era possível ouvir o barulho de ferro se retorcendo e das águas batendo com certa violência no casco de nosso navio. A visão do segundo e terceiro andar era algo estranho. Aqueles quase infinitos corredores, repletos de gente, redes e malas, agora se transformavam em imensos salões onde o simples fato de pisar mais forte, era motivo suficiente para produzir um eco substancial. Me apoiei em uma beirada, com o Navio à minha direita e o Amazonas à minha esquerda. Acendi um cigarro e passei a contemplar o nada, lembrando e assimilando as pessoas e histórias que conhecemos nos últimos dias. Ouvi passos subindo a escada. Era Maeda me chamando para descermos até o porão, onde nosso carro repousava tranquilamente.

Catamarã Rondônia após chegada a Belém. O vazio de ninguém a bordo

Catamarã Rondônia após chegada a Belém. O vazio de ninguém a bordo

Ja era por volta de 07:00 e precisávamos aproveitar a maré alta da manhã para retirar o carro do navio. Com a ajuda da tripulação e de mais duas longas tábuas de madeira maçiça, Maeda conseguiu o feito. Embicou a parte de trás do carro em direção às madeiras e aguardou o assovio de um tripulante. Depois foi só rezar e pisar no acelerador, vencendo os poucos metros que ainda separavam o catamarã do continente. Nos despedimos dos amigos e parte da da tripulação que ainda estavam por ali. Saímos para o porto e aguardamos até as 08am, quando estaríamos liberados pelos oficiais a deixar o porto e efetivamente entrar em Belém.

Maeda, com ajuda da tripulação, retira nosso carro do porão do Navio

Maeda, com ajuda da tripulação, retira nosso carro do porão do Navio

Já em terra firme, meu corpo continuava a balançar de um lado para outro. Perguntei ao Maeda e o mesmo ocorria com ele. Eu acho que é como um movimento de compensação provocado pelo labirinto ou algo que o valha. Enquanto estávamos a bordo não percebíamos. O navio jogava de um lado pro outro e nosso corpo automaticamente compensava, de lá para cá. É uma sensação bizarra porque o movimento é bastante sutil e automático. Quando me dava por conta, percebia estar balançando. É quase como uma constante e levíssima tontura. :-)

Pois bem. Depois de vencermos as 860 milhas náuticas desde Manaus, finalmente estávamos em Belém, uma cidade que transpira cultura, história e gastronomia. Como ainda era cedo, aproveitei o sol da manhã (as usual) para algumas fotos. Já tínhamos um objetivo em mente e fomos direto para ele: o clássico dos clássicos em Belém, o mercado de “Ver-O-Peso”. O mercado é simplesmente espetacular. Construído em 1625, fica as margens da baía do Guarajá. Tem esse nome tão peculiar por causa das “Casas de Ver-o-Peso”, projetadas no Brasil em 1614, para conferir o peso exato das mercadorias e cobrar os respectivos impostos para a coroa portuguesa. O Ver-o-Peso é o maior mercado da América Latina, compreende uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de construções históricas, dentre elas o Mercado de Ferro, o Mercado da Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira.

O lugar é uma explosão de cores, sabores, cheiros, sons e gente de todo tipo, de todo lugar. Entramos pela feira do Açai e eu empolgadíssimo tirando foto de tudo. Percebi um senhor bem idoso, vendendo castanhas, ainda dentro do ouriço em estado bruto. Eram muitas e estavam dentro de um grande balaio. A foto seria bonita. Me aproximei, sorri e apontei a camera para os frutos. Meu Deus do Céu. O senhor ficou realmente muito bravo, disse que era proibido tirar fotos das castanhas dele, que era pra eu sumir dali e sutilmente ameçou ir para as vias de fato (tadinho, ele mal conseguia ficar em pé). Entendi a mensagem e me mandei dali. Era só um velhinho ranzinza com o saco cheio de turistas que tiram fotos de ouriços. A parte ruim é que perdi uma foto que realmente seria ótima em PB. Ainda mais se ele e sua face craquelada aparecessem. Continuamos andando por toda a feira do Açai, conversando com as pessoas e tirando fotos.

Feira do Açai, mercado de Ver-O-Peso

Feira do Açai, mercado de Ver-O-Peso

A fome bateu e fomos tomar o mais típico café da manhã paraense, ali mesmo no ver-o-peso. Sentamos numa barraquinha e pedimos peixe frito, Açai e farinha d’agua. O peixe, uma tainha inteira deliciosa. Morto de fome, peguei um prato, coloquei o peixe e enchi de Açai ao lado. Levei um pedaço de peixe à boca e depois uma boa colherada de Açai. Ave mãe! Definitivamente o Açai não era o que esperava. Açai pra mim era como estes que se compram em São Paulo, doces, que já vem misturados com guaraná e granola. O Açai de verdade é muito, mas muito mesmo, diferente. A consistência até que é parecida mas o sabor é bastante amargo e carregado de … sei lá … terra??! Acabei com o peixe e deixei o Açai. Maeda olhou pra mim com uma cara de ‘larga de frescura e pára de me fazer passar vergonha rapaz!’, mas não teve jeito. Não deu para mim e ele acabou tomando a tigela inteira de açai. E adorou.

Fruta Amazonia - Ver-o-Peso

Fruta Amazonia - Ver-o-Peso

Depois passamos por uma grande barraca de frutas regionais onde conhecemos Dona Carmelita. Esta adorável senhora nos aguentou por quase 2 horas. Degustamos infinitas variedades de frutas Amazônicas, algumas que sequer sabia que a natureza era capaz de produzir: Tucumã, Sapoti, Abricó, Procoló, Buriti, Cupuaçu, Pupunha, Graviola, Taperebá e por aí vaí. Maeda conversou, conversou e conversou. Perguntou sobre as frutas, o solo da região, palmeiras, cultura em geral. No fim compramos algumas frutas da região para trazer a Sao Paulo e gastamos impressionantes R$ 15,00. As sacolas já estavam pesadíssimas e não dava para carregar mais nada. Tudo muito barato e gostoso.

Sapoti, Cacau e por aí vai. Mercado de Ver-O-Peso

Sapoti, Cacau e por aí vai. Mercado de Ver-O-Peso

Bom, este foi metade do primeiro dia no Ver-o-Peso.
Daqui a pouco venho lhes contar mais sobre Belém.

Uma resposta para Dia 18 – Belém: belezas e riquezas – Parte 1

  1. João disse:

    Correto seu pensamento em relação ao balanço em terra. Em situações de muito balanço a bordo, uma simples goma de mascar faz com que esta sensação seja amenizada.
    Parabéns pela aventura.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.