Dia 17 – Após 4 dias navegando no Amazonas…


Mingalaba pessoal!

Nosso último dia a bordo do Catamarã Rondônia começou cedo.

Acordamos as 05am, exatamente quando o sol começava a despontar no horizonte. Tomamos uma boa dose de café e então fui até o deck superior para algumas fotos. (nota do autor: sou um fotógrafo amador, com uma camera vagabunda, tirando fotos amadoras. No entanto, se alguma coisa é capaz de fazer minhas fotos ficarem melhores, esta coisa é a luz. Prefiro a luz das manhãs e a do fim de tarde. Há uma mágica aí que pode transformar a captação da imagem). Fiquei lá por um bom tempo. Maeda aproveitou esta última manhã para por em prática seu lado de antropólogo, tudo devidamente registrado em sua Moleskine. Segundo o próprio, conversando com as pessoas que estavam acordadas neste ínicio de manhã, conseguiu somar mais duas histórias de vida à sua coleção. Histórias estas, em sua maioria tristes e sofridas mas sempre com um final de superação que tanto caracteriza o povo do norte brasileiro.

Por volta das 09:30 Maeda me chama para registrar a cidade pela qual passávamos. Adorou o nome dela, o que nos motivou a conversar com as pessoas para conhecer um pouco da história deste pequeno município. Curralinho tem por volta de 22.000 habitante e localiza-se na microrregião de furos do Marajó tendo como limites ao norte Breves. Fica cerca de 7 horas de Belém, por barco. A cidade se originou a partir de uma fazenda particular, que cresceu devido ao agrupamento de pessoas ligadas a seus proprietários em decorrência de interesses comerciais. Seu nome vem de “curralzinho”, usado pelos aventureiros portugueses que, com o uso, perdeu o “Z”. Ahhhh… Explicado. :-)

Quando se olha para os lados e percebe que as águas do Amazonas consomem até o horizonte, o que menos se espera é fazer a feira. Ironicamente é uma das coisas que acontece com mais frequência aqui. Por toda parte ribeirinhos vão em suas pequenas voadeiras, levando toda sorte de alimentos para as embarcações que ali navegam. Tivemos banana, maracujá selvagem, vários peixes diferentes, farinha d’agua, camarão seco, castanha do pará, além de um espetacular queijo meia cura, feito pelos próprios locais. Se aproximavam cuidadosamente de nosso catamarã, aguardando o momento certo para atracar. Quando conseguiam, logo começavam a gritar o que vendiam e qual o preço, criava-se um pequeno alvoroço no navio. As pessoas contavam moedas, pediam emprestado, pechinchavam. Tudo tal qual uma verdadeira feira. Numa destas investidas de ribeirinhos, Maeda comprou um bom pedaço de queijo meia-cura que nos alimentou por alguns dias. Como não tínhamos geladeira e o calor era muito forte, optei pela segurança intestinal (como sempre) e comi-o apenas no primeiro dia. Peguei um bom pedaço e coloquei-o no único lugar possível: em cima de uma mala, no chão mesmo. Ao contrário de meus pedidos, Maeda, rústico como é, o comeu durante 4 dias, quando o cheiro de azedo começava a ficar insuportável. De qualquer forma, desta vez tinha razão. Apesar do cheiro, o queijo não estava estragado e portanto, não teve maiores problemas ao come-lo.

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

No início da tarde passamos por um canal estreito, famoso na região por um espetáculo que eu e Maeda concordamos em classificar como bizarro. Neste canal, o navio precisa navegar mais devagar e redobrar o cuidado. Aqui já há influência da maré do oceano Atântico. Conforme o navio vai sutilmente rasgando o rio, um enxame de ribeirinhos remando suas típicas canoas em sua maioria feitas de árvores, vem chegando por todas as direções, como se fosse um ataque pirata. Grande parte são crianças e em muitas vezes estavam sozinhas remando pelo Amazonas. Fazem alguns barulhos com a boca imitando animais da mata e aproveitam para chamar a atenção de quem está no navio. O script a seguir já está fixado na cabeça das pessoas. Embrulham em sacos plásticos, todo tipo de coisa: alimentos, cobertores, redes, roupas e qualquer outro tipo de objeto que desejam dar como esmola. Olhando de fora, a primeira vista é uma imagem bonita e que realmente impressiona. Os pobres ribeirinhos, fadados a uma vida de dificuldades extremas remam perigosamente em direção à salvação, um lugar onde bondosas pessoas se desapegarão de bens materiais em função de um objetivo maior: o de ajudar o próximo. No entanto, olhando mais de perto, pudemos traçar um paralelo com os semáforos de São Paulo. Muitas vezes, o próprio pai incentiva o filho a ir para o semáforo pedir dinheiro. O garoto vai lá, faz uns malabarismos, ganha um dinheiro que leva para o pai beber pinga. Não estou dizendo que seja exatamente este o caso mas vejam: o ribeirinho do amazonas tem realmente uma vida dura mas não necessariamente tão sofrida. O rio lhe fornece enorme variedade de animais. O quintal de sua casa é a mata que fornece caça, mandioca, arroz, feijão, frutas. O sistema de palafita onde as casas são construídas dá certa segurança quanto ao nível do rio. Ou seja, a visão das pessoas do navio, algumas que ‘até choravam de dó’ está equivocada. Sofrida sim, miserável não.

Casa de ribeirinho, as margens do Amazonas. Foto: Marcos Bonas

Casa típica, construída no sistema de palafita. Foto: Marcos Bonas

Enfim, passamos pelo estreito. O que se via agora era uma monstruosa baía onde o horizonte parecia de infinita água. Literalmente estávamos no mar. Não era possível enxergar as margens e as ondas influenciadas pela maré batiam forte no Catamarã. Chacoalhava de um lado pra outro, muito. Era o sinal que aguardávamos ha 4 dias. Estamos muito próximos de Belém. Aproveitamos para arrumar as malas, despedir dos muitos amigos (acreanos, roraimenses, maranhenses, amazonenses, rondonienses, gaúchos, peruanos e até franceses) e preparar o carro para partida. No fim da tarde avistamos Belém no horizonte. E embora parecesse muito perto, só fomos realmente atracar no porto as 21:30. Como estava tarde para procurar o hotel e o navio ficaria atracado pelas próximas 24 horas, aproveitamos para dormir mais uma noite em nosso Catamarã.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.