Cinco verdades que você deve saber sobre a Amazônia

28/06/2009

1) O QUE É A AMAZÔNIA?
Muita gente se confunde aqui. A Amazônia é muito maior que o Amazonas, estado. Geograficamente, é uma ampla região natural da América do Sul, definida pela bacia do rio Amazonas e coberta em grande parte pela maior floresta tropical que este planeta já sonhou em ter. Em termos de rios, a bacia hidrográfica da Amazônia possui afluentes de extrema importância tais como rio Negro, Tapajós e Madeira, sendo que o rio principal é obviamente, o Amazonas. Além do Brasil, o rio Amazonas que nasce na cordilheira dos Andes, serpenteia por outros oito países: Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Especificamente no Brasil, nossa Amazônia é delimitada por uma área chamada de “Amazônia Legal”, que engloba nove estados brasileiros pertencentes à Bacia amazônica e, conseqüentemente, possuem em seu território trechos da Floresta Amazônica. A Amazônia ou Amazônia Legal, possui 61% do território brasileiro e compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e ainda parte do estado do Maranhão.

Depois desta rápida explicação, você está apto(a) a saber o número: são impressionantes 5.217.423 km² de Amazônia.

Parece bastante né? Pois é, acho que um dia já foi. Veremos no item 2.

2) A AMAZÔNIA É FINITA.
Apesar das dimensões continentais e da magnífica grandeza geográfica, a Amazônia é finita. E lhes digo isso como conhecedor de causa. Durante a Expedição Madeira – Rumo ao Norte passando por quase toda a Amazônia, pudemos ver e documentar o que décadas de devastação fizeram e ainda fazem, às áreas de floresta nativa. Em absolutamente todos os estados que compõe a Amazônia, há em menor ou maior nível, a mão destrutiva do homem. Lugares incríveis, com mata fechada, riachos cristalinos e abundância de vida silvestre se intercalam com vastos campos para criação de gado. Além disso, acompanhamos um triste e crescente ranking de animais silvestres atropelados nas estradas.

Infelizmente isso é real e difícil de reverter. A área de floresta original e preservada é cada vez menor. Este mês comemoramos uma redução drástica no percentual de área desmatada comparada ao mesmo período de 2008. Em maio/2009 por exemplo, a Amazônia perdeu cerca de 123,7 km² de suas florestas – área equivalente a sete vezes a Ilha de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Significa uma redução de 89% em relação ao mesmo período do ano passado.

Entenderam a gravidade? Se estamos comemorando a devastação de *apenas* 7 Fernando de Noronha neste mês, imagine o que as duas, três ultimas décadas deixaram na Amazônia. Sinceramente, posso lhe dizer: uma paisagem pouco parecida com as imagens do Fantástico e Globo Repórter de quando era criança e muito mais parecida com o interior de São Paulo.

No entanto, pela monstruosidade da região, ainda existem grandes áreas de floresta nativa. Estas áreas, ainda virgens, são as que devemos mais nos preocupar em preservar. Se continuarmos neste ritmo, em uns 10, 15 anos não haverá mais nada lá. E aí se segurem com as mudanças climáticas, que se intensificarão por todo o mundo.

Cemitério às margens do rio Amazonas

Cemitério às margens do rio Amazonas

3) O QUE DESTRÓI A AMAZÔNIA?
Em três palavras: madeireiras / agroindústria / estradas.

A natureza é sábia. Talvez este seja o motivo de ainda termos a maior floresta tropical da Terra. O solo da Amazônia (acima do Mato Grosso) é conhecidamente pobre em nutrientes, fazendo com que não seja ideal para o plantio de grãos. A Soja que quase dizimou a totalidade das matas e florestas do Mato Grosso, sofre um pouco mais para se estabelecer ali. Mesmo assim, o homem vai tentando dar seu jeito.

Nos últimos anos o principais vetores do desmatamento da Amazônia foram a expansão do cultivo de grãos e principalmente da pecuária, a extração ilegal de madeira, além da melhoria de infra-estrutura de transporte. Estes fatores tem mais ou menos peso dependendo da região. Grandes áreas localizadas sobretudo a leste do Parque Indígena do Xingu, foram convertidas de floresta para campos de soja. Assim, áreas já desmatadas e que eram utilizadas como pastagem para o gado foram substituídas por cultivos agrícolas, criando o incentivo para o desmatamento de novas áreas para a formação de pastos, com o intuito de comportar os rebanhos que foram “desabrigados” pela soja. No cenário mais atual o principal vilão é sem dúvida, a agropecuária.

Historicamente é sabido também que além do progresso, as estradas costumam levar alto grau de destruição aos lugares. Ambientalistas apontam as rodovias como rotas que levam o desmatamento às diferentes regiões da Amazônia. O mapa com os focos de desmatamento mais recentes detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) parece comprovar esta teoria: as áreas de devastação se concentram ao redor de estradas como a Transamazônica, a BR 163 (Cuiabá-Santarém) e a BR-364. Por outro lado, vivi na pele o fato de ficar a mercê de transporte fluvial na região (o único meio possível atualmente para chegar em alguns lugares) e particularmente sou a favor de abrir a BR-319 para melhorar o acesso dos locais e inclusive levar algum progresso a região, que sim, se faz necessário. No entanto, acredito que a opção por continuar a estrada foi equivocada. Poderia ser feito investimento em malha férrea, menos prejudicial à natureza, mais barato, ecológico e mais rápido.

4) QUEM DESTRÓI A AMAZÔNIA?
Para colocar de uma maneira simples: eu e você.

Se levarmos em conta apenas o Brasil, os maiores consumidores e de certa forma fomentadores da devastação da Amazônia, são as regiões abaixo do centro e centro-oeste brasileiro. São Paulo encabeça a lista de maior comprador de madeira da região mas não é o único.

Se olharmos pelo panorama mundial, os maiores devastadores são Estados Unidos e Europa, uma vez que a madeira da Amazônia alimenta inúmeras cadeias de vendas de pisos e móveis por lá. Esse é o esquema mais sujo de todos. Uma recente pesquisa feita pelo Observatório Social, pela ONG Repórter Brasil e pelo Papel Social Comunicação, aponta que 70% de toda a madeira comercializada no estado do Pará, maior vendedor de madeira amazônica no Brasil, tem origem ilegal. Essa madeira é “esquentada” dentro de órgãos do governo. Autoridades do MPF (Ministério Público Federal) e do Ibama confirmam o esquema e apontam o envolvimento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente que opera em parceria com madeireiras e empresas de exportação.

Ou seja, enquanto houver gente comprando, haverá gente vendendo. Seja madeira, seja carne, ouro ou qualquer outro tipo de recurso natural.

5) COMO NÓS, QUE NÃO FAZEMOS PARTE DA AMAZÔNIA, PODEMOS AJUDA-LÁ?
Bom, em primeiro lugar, todo esse blá blá blá de a Amazonia é do mundo, é balela. A Amazonia, ao menos a parte que está em nosso país, tem suas fronteiras guardadas pelo Exército Brasileiro e é nossa e de mais ninguém. Porém, devido às suas dimensões, o que ocorre ali acaba de certa forma influenciando boa parte do resto do globo. Nesta conjuntura, precisamos parar de ficar numa postura de espectador (que é tão comum ao povo brasileiro -me incluo nisso-) e começar a fazer algo efetivo para fazer jus ao que é nosso.

Atitudes simples podem ajudar
- Se for reformar ou construir, verifique se a madeira realmente é legalizada. Não deixem que te façam de bobo com um selinho qualquer. Vá atrás da informação quente. Veja se a madeira vem de areas de reflorestamento, se há um programa sério de acompanhamento e garantia de procedência. Melhor, use madeira de demolição: mais limpa, durável (já está bastante seca) e apenas um pouco mais caro.

- Economize energia e busque fontes alternativas (todo mundo sabe do que estou falando). O governo só precisa construir usinas na Amazônia (como a de Jirau e Santo Antonio no rio Madeira), porque há consumo. Tem o objetivo geral de levar desenvolvimento e preparar a região norte, no entanto, boa parte do que for produzido lá, será utilizado como backup para que não tenhamos mais apagões no resto do país. Se as pessoas não consumissem tanto, não seria necessário gerar tanto.

- Agora, quer ajudar realmente a Amazônia? Mesmo? Então esqueça-se da Amazônia e pense no Brasil.
Tudo o que falei anteriormente deve, se muito, ser 20% do que destrói efetivamente a Amazônia. O maior responsável pelos problemas por lá, é sem dúvida, a corrupção. E corrupção em todos os níveis. Governo, empresas e no fim, todos nós. Não adianta lei em cima de lei se nada acontece e os culpados não são punidos. Não adianta programa de certificação de madeira se há envolvimento do IBAMA, empresas de exportação e outros órgãos do governo, esquentando a tora. Não adianta usar transporte público se no dia-a-dia, você faz uso do ‘jeitinho brasileiro’, leva uma vantagenzinha aqui, outra ali. Não adianta sentar a bunda na cadeira e esperar 4 anos passarem de votação em votação enquanto tem gente fazendo sessão secreta no Senado.

Para ajudar a Amazonia, precisamos ajudar o Brasil. Este é um único país, com patrimônio natural e cultural inigualáveis.

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Amazonia Para Sempre


Dia 17 – Após 4 dias navegando no Amazonas…

22/06/2009

Mingalaba pessoal!

Nosso último dia a bordo do Catamarã Rondônia começou cedo.

Acordamos as 05am, exatamente quando o sol começava a despontar no horizonte. Tomamos uma boa dose de café e então fui até o deck superior para algumas fotos. (nota do autor: sou um fotógrafo amador, com uma camera vagabunda, tirando fotos amadoras. No entanto, se alguma coisa é capaz de fazer minhas fotos ficarem melhores, esta coisa é a luz. Prefiro a luz das manhãs e a do fim de tarde. Há uma mágica aí que pode transformar a captação da imagem). Fiquei lá por um bom tempo. Maeda aproveitou esta última manhã para por em prática seu lado de antropólogo, tudo devidamente registrado em sua Moleskine. Segundo o próprio, conversando com as pessoas que estavam acordadas neste ínicio de manhã, conseguiu somar mais duas histórias de vida à sua coleção. Histórias estas, em sua maioria tristes e sofridas mas sempre com um final de superação que tanto caracteriza o povo do norte brasileiro.

Por volta das 09:30 Maeda me chama para registrar a cidade pela qual passávamos. Adorou o nome dela, o que nos motivou a conversar com as pessoas para conhecer um pouco da história deste pequeno município. Curralinho tem por volta de 22.000 habitante e localiza-se na microrregião de furos do Marajó tendo como limites ao norte Breves. Fica cerca de 7 horas de Belém, por barco. A cidade se originou a partir de uma fazenda particular, que cresceu devido ao agrupamento de pessoas ligadas a seus proprietários em decorrência de interesses comerciais. Seu nome vem de “curralzinho”, usado pelos aventureiros portugueses que, com o uso, perdeu o “Z”. Ahhhh… Explicado. :-)

Quando se olha para os lados e percebe que as águas do Amazonas consomem até o horizonte, o que menos se espera é fazer a feira. Ironicamente é uma das coisas que acontece com mais frequência aqui. Por toda parte ribeirinhos vão em suas pequenas voadeiras, levando toda sorte de alimentos para as embarcações que ali navegam. Tivemos banana, maracujá selvagem, vários peixes diferentes, farinha d’agua, camarão seco, castanha do pará, além de um espetacular queijo meia cura, feito pelos próprios locais. Se aproximavam cuidadosamente de nosso catamarã, aguardando o momento certo para atracar. Quando conseguiam, logo começavam a gritar o que vendiam e qual o preço, criava-se um pequeno alvoroço no navio. As pessoas contavam moedas, pediam emprestado, pechinchavam. Tudo tal qual uma verdadeira feira. Numa destas investidas de ribeirinhos, Maeda comprou um bom pedaço de queijo meia-cura que nos alimentou por alguns dias. Como não tínhamos geladeira e o calor era muito forte, optei pela segurança intestinal (como sempre) e comi-o apenas no primeiro dia. Peguei um bom pedaço e coloquei-o no único lugar possível: em cima de uma mala, no chão mesmo. Ao contrário de meus pedidos, Maeda, rústico como é, o comeu durante 4 dias, quando o cheiro de azedo começava a ficar insuportável. De qualquer forma, desta vez tinha razão. Apesar do cheiro, o queijo não estava estragado e portanto, não teve maiores problemas ao come-lo.

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

No início da tarde passamos por um canal estreito, famoso na região por um espetáculo que eu e Maeda concordamos em classificar como bizarro. Neste canal, o navio precisa navegar mais devagar e redobrar o cuidado. Aqui já há influência da maré do oceano Atântico. Conforme o navio vai sutilmente rasgando o rio, um enxame de ribeirinhos remando suas típicas canoas em sua maioria feitas de árvores, vem chegando por todas as direções, como se fosse um ataque pirata. Grande parte são crianças e em muitas vezes estavam sozinhas remando pelo Amazonas. Fazem alguns barulhos com a boca imitando animais da mata e aproveitam para chamar a atenção de quem está no navio. O script a seguir já está fixado na cabeça das pessoas. Embrulham em sacos plásticos, todo tipo de coisa: alimentos, cobertores, redes, roupas e qualquer outro tipo de objeto que desejam dar como esmola. Olhando de fora, a primeira vista é uma imagem bonita e que realmente impressiona. Os pobres ribeirinhos, fadados a uma vida de dificuldades extremas remam perigosamente em direção à salvação, um lugar onde bondosas pessoas se desapegarão de bens materiais em função de um objetivo maior: o de ajudar o próximo. No entanto, olhando mais de perto, pudemos traçar um paralelo com os semáforos de São Paulo. Muitas vezes, o próprio pai incentiva o filho a ir para o semáforo pedir dinheiro. O garoto vai lá, faz uns malabarismos, ganha um dinheiro que leva para o pai beber pinga. Não estou dizendo que seja exatamente este o caso mas vejam: o ribeirinho do amazonas tem realmente uma vida dura mas não necessariamente tão sofrida. O rio lhe fornece enorme variedade de animais. O quintal de sua casa é a mata que fornece caça, mandioca, arroz, feijão, frutas. O sistema de palafita onde as casas são construídas dá certa segurança quanto ao nível do rio. Ou seja, a visão das pessoas do navio, algumas que ‘até choravam de dó’ está equivocada. Sofrida sim, miserável não.

Casa de ribeirinho, as margens do Amazonas. Foto: Marcos Bonas

Casa típica, construída no sistema de palafita. Foto: Marcos Bonas

Enfim, passamos pelo estreito. O que se via agora era uma monstruosa baía onde o horizonte parecia de infinita água. Literalmente estávamos no mar. Não era possível enxergar as margens e as ondas influenciadas pela maré batiam forte no Catamarã. Chacoalhava de um lado pra outro, muito. Era o sinal que aguardávamos ha 4 dias. Estamos muito próximos de Belém. Aproveitamos para arrumar as malas, despedir dos muitos amigos (acreanos, roraimenses, maranhenses, amazonenses, rondonienses, gaúchos, peruanos e até franceses) e preparar o carro para partida. No fim da tarde avistamos Belém no horizonte. E embora parecesse muito perto, só fomos realmente atracar no porto as 21:30. Como estava tarde para procurar o hotel e o navio ficaria atracado pelas próximas 24 horas, aproveitamos para dormir mais uma noite em nosso Catamarã.


Santarém: embaixo das águas e ainda elegante

17/06/2009

G’day mate!

Chegamos em Santarém, no Pará, por volta de 02PM. Santarém é uma cidade chave para as embarcações. Toneladas de grãos, batata, cebola, até dezenas de motos Dafra –cuja fábrica fica em Manaus– que estavam no porão do navio, precisavam ser descarregados. Com isto, a parada por ali é sempre um pouco mais demorada. Bastou o navio atracar para que um aglomerado de estivadores se apressassem em nossa direção. Vimos uma oportunidade de tempo na qual podíamos desembarcar momentaneamente para conhecer a segunda maior cidade do Pará, além é claro de provar da gastronomia local, numa rápida imersão. Maeda, mais do que rapidamente, foi conversar com o capitão. Voltou e disse: “Podemos ficar tranquilos até as 16:00, hora em que o navio zarpa para continuar a viagem até Belém. Bora lá.”

Logo que descemos, pude sentir o forte sol do Pará tostando minha pele. A leve brisa que insistia em correr pelos ares era quente. Impossível se manter seco; suava em bicas. Mesmo para os locais, mais acostumados com o clima, o calor é forte. Olhei ao redor. Procurava por um táxi para nos levar até o centro da cidade e talvez fazer um pequeno tour por Santarém. Ali mesmo dentro do porto, encontramos Dona Maura. Uma simpática taxista do alto de seus bons 40 anos. Mulher goiana que morava no Pará há mais de 20 anos. Neste dia o movimento estava muito fraco no porto. Conversamos com D. Maura e fechamos um mini pacote turístico por 40,00. Além de dar uma olhada geral na cidade e entender um pouco mais da cultura e situação socio-economica, tinha o objetivo pessoal de fazer Maeda experimentar o Tacacá e a Maniçoba, comidas típicas da região. Maura –que a esta altura ja havia virado nossa amiga–, explicou que normalmente estas iguarias começam a ser servidas a partir das 16:00. Oh-Oh. Neste horario deveríamos estar de volta ao Navio. Por estratégia, achamos melhor manter o passeio pela cidade e quando chegasse perto da hora de ir embora, procuraríamos um lugar que estivesse servindo as comidas. Com um pouco de sorte, daria certo.

Santarém é uma cidade naturalmente linda, bastante organizada e com um povo de tirar o chapeu. Extremamente educados e hospitaleiros. Fomos a igreja Matriz (1761), tomamos um excelente sorvete de frutas típicas (o meu foi de tapioca com açai) da região, paramos um pouco para conversar com as pessoas em uma famosa praça (cujo nome me foge), cheia de tracajás. Andamos até a orla, um espetáculo a parte. Dali mesmo se pode apreciar o encontro das águas entre o rio Tapajós e Amazonas. Infelizmente, como nos explicou Maura e pudemos apurar pouco tempo depois, a maior parte da cidade estava intransitável, literalmente embaixo d’agua. Neste período houve a maior cheia do rio amazonas desde 1927. Embora cite nos meus estudos que este não é um grande problema para os ribeirinhos, nas cidades a situação é inversa. Não há palafitas ali. As pessoas se viravam como podiam. Em boa parte do centro foram construídas plataformas altas de madeira, acima do nível da água, para funcionarem paliativamente como calçadas. Assim, tivemos que deixar alguns dos encantos de Santarém para uma próxima viagem.

Santarém, castigada pelas aguas do Amazonas, na maior cheia desde 1927

Santarém, castigada pelas aguas do Amazonas, na maior cheia desde 1927

Mas nem tudo estava perdido. Ja era cerca de 15:20 e eu começava a me preocupar com a volta ao navio. A regra é: quem não estiver a bordo no momento de partida, fica. Simples assim. Claro que se o navio zarpasse, havia a possibilidade de pagarmos alguem com uma voadeira para nos levar até ele, mas nem de longe isso parecia uma boa idéia (alias, na tranquila cabeça do Maeda, parecia. hehe). Neste momento D. Maura lembrou de um lugar famoso onde começavam a servir Tacacá e Maniçoba um pouco mais cedo. Era a casa de uma senhora, cuja parte da frente havia sido transformada em restaurante. Não se enganem, a transformação que me refiro foi pura e simplesmente colocar algumas mesas de ferro ao lado das plantas da área, para que as pessoas pudessem se sentar e apreciar o rango. Lugar bastante simples e comida caprichada.

Fazia um calor de 38 graus e Maeda logo pediu o Tacacá. Esta típica comida deriva de um tipo de sopa indígena denominada mani poi. É servida em cuias: coloca-se primeiramente um pouco de tucupi e o caldo da pimenta-de-cheiro com tucupi. Acrescenta-se a goma e arranjam-se os ramos do jambu de modo bem distribuído. Colocam-se os camarões e acrescenta-se mais tucupi até quase completar a cuia. “Bota bastante goma aí!”, Maeda disse. “Ah sim, quero bem quente também”, completou. Pobre coitado. Mal sabia o que havia pedido. A goma é feita de mandioca, extremamente consistente, grossa e de gosto forte. O quente, entende-se por quente mesmo (fervendo) além da porção extra de pimenta no tucupi. A cada golada, Maeda suava um pouco mais. Misturava, pegava um bm pedaço de camarão, comia o jambu com as mãos e dava mais um bom gole. Se o próprio tinhoso estivesse ali, estaria se abanando. Ave mãe. Experimentei. Gostei mas achei muito forte. Preferi deixar pro Maeda.

Maeda prova o famoso Tacacá do Pará

Quando enfim terminou o Tacacá, a gloriosa D. Maura disse que não o deixaria partir de Santarém sem conhecer outra típica comida. Desta vez, falamos da Maniçoba, outro prato de origem indígena e conhecido como feijoada paraense. Seu preparo é importantíssimo, uma vez que parte dos ingredientes é venenoso. É feito com as folhas da maniva/mandioca moídas e cozidas, por aproximadamente uma semana (para que se retire da planta o acido cianídrico, que é venenoso), acrescida de carne de porco, carne bovina e outros ingredientes defumados e salgados. Quente também. E cheio de pimenta no tucupi. Minha sensação ao olhar para o Maeda era um misto de dó e graça. Se alguém oferece uma comida a ele, não sabe dizer não. Come até o fim, mesmo que não esteja aguentando. Sua testa parecia derreter de tanto suor. Comeu, comeu e comeu. Valeu a pena. Para ajuda-lo, fui ao bar do lado e comprei 3 cocas geladíssimas. Duas delas o bicho sorveu na hora.

Maniçoba - A feijoada paraense

Pois bem, ja estava na hora de voltar. Agradecemos D. Maura pelo ótimo passeio e principalmente pela agradável companhia de nossa guia por um dia. Chegamos no navio e agora ele era carregado com produtos que iam de Santarém paa Belém. Maeda foi direto pro banheiro, disse que ia tomar banho porque estava muito quente. Abaixei a cabeça, soltei uma gargalhada e concordei. Não o vi pelas 2 horas seguintes. :-)

Como já disse aqui, horário não é o forte do transporte fluvial da região Amazonica. Saímos de Santarém as 19:00, 3 horas depois da previsão inicial. Este foi o resumo do dia.


Dicas: faça sua própria expedição

15/06/2009

Bom dia.

Tenho recebido um sem fim de emails com dúvidas de como proceder, qual trajeto percorrer e sobretudo o que levar, em uma viagem nos moldes da Expedição Madeira. Assim, preparei o post abaixo com dicas fora do ‘lugar comum’, com intuito de fazer sua aventura mais segura e de lhes dar uma solução paliativa para imprevistos que possam aparecer no decorrer da viagem.

O Brasil é um país de dimensões continentais. Bem aqui no nosso quintal temos florestas, desertos, cerrado, vastas planícies, planaltos a perder de vista, mar, montanhas. Muita gente quer viajar pra fora antes mesmo de conhecer nossas riquezas. Meu conselho é: fiquem aqui, peguem um carro, botem o pé na estrada, divirtam-se e mergulhem nas dezenas de culturas de um mesmo país. Para isso, algumas dicas podem ajudar.

1 – Planejamento
Por mais boba que seja sua viagem e há menos que você seja um milionário excentrico ou um hippie sem emprego por convicção, é necessário planejar. Saber as datas de partida e retorno, onde quer chegar, quais os pontos de parada, qual a distância a ser percorrida por dia, o que quer ver. Para a Expedição Madeira, eu criei uma rota-base que continha as principais cidades pelas quais passaríamos para completar o trajeto. Calculei a quilometragem total da viagem (parte seca e parte úmida separadamente), e dividi mais ou menos pela quantidade de dias que tínhamos para a aventura. Esta simples atitude lhe fornece grande ajuda para saber se está atrasado e portanto, deve logo partir dando continuidade a viagem ou se pode ficar mais um pouco. Outro ponto importante é o planejamento financeiro. Você precisa saber exatamente quanto tem para gastar e fazer um controle diário sobre os recursos financeiros. Eu mantive atualizado por todo este tempo a planilha de gastos da Expedição. Cada litro de combustível, cada centavo gasto em hotel, pedágio, comida e presentes iam para lá. Com esta visibilidade, você pode por exemplo, ficar em uma pensão ao invés de hotel ou ainda almoçar em lugares mais simples caso seja necessário alguma economia.

2 – Malas e Backup
É importante ter em mente que imprevistos podem acontecer. Imagindo hipoteticamente algumas situações, você consegue pensar em um plano contingencial e assim, se vier a acontecer, estará preparado para solucionar o problema e prosseguir com a viagem. Ao invés de levar malas especializadas (ex: mala só de toalhas, outra só de sapatos, outra só de roupas) tente levar malas backup, contendo um pouco de tudo que pode precisar. Desta forma, se perder uma mala ou mesmo for furtado, sempre haverá outra com condições totais de lhe atender. Poderá trocar de roupa, se secar, colocar outro sapato tranquilamente. Outra dica valiosa é colocar um saco plástico dentro da mala, de forma que suas roupas fiquem dentro do saco. Isso as manterá impermeabilizadas no caso de chuva ou se caírem n’agua. E também as manterá limpa em casos extremos de estradas de chão onde a terra vermelha vira um fino talco e entra (absurdamente!) por tudo quanto é lugar.

Graças à capacidade premonitória de minha adorável esposa e de sua mãe, não aprendemos esta lição da maneira mais difícil. Em Palmas (Tocantins), duas de nossas malas foram furtadas bem em frente ao palácio do governo. Como elas estavam no padrão de backup, não tivemos maiores problemas do que perder um punhado de roupas (muito) sujas.

3 – Dinheiro
É sempre bom ter dinheiro vivo em mãos. Muitos lugares não aceitam cheques nem cartões. O ideal é pegar uma quantia razoável, algo entre 200,00 e 500,00 e dividi-los em lugares estratégicos. Ex: porta luvas, bolso, mala, com outra pessoa. Assim, se for roubado ou mesmo perde-lo, não ficará sem nada. Uma das coisas que mais nos consumiu recursos financeiros nesta viagem foi o combustível (obviamente). Um tanque de alcool em média saía por 140,00. Sempre pagávamos em dinheiro e conforme ia acabando, parávamos em alguma cidadezinha e sacávamos mais um pouco.

4 – Carro & Combustível
Há lugares onde se anda centenas de quilômetros sem encontrar um posto. Nestes pontos, você está sujeito a um pneu estourado, um motor aquecido ou ao que é mais comum, pane seca. Durante o trajeto da Expedição Madeira encontramos alguns veículos com este problema. Para este caso, a dica é bem simples: mantenha sempre mais de meio tanque. Quando perceber que o combustível está abaixo da metade, pare no próximo posto e complete. Se seu veículo é flex, em alguns lugares recomendo abastecer com gasolina. A autonomia é muito maior que a do alcool e pode lhe render preciosos quilômetros a mais em caso de não encontrar um posto. Outro aspecto que se deve levar em consideração é a situação atual do carro. As estradas podem ser duras e por mais que se planeje, não dá pra saber exatamente o que vem pela frente. Por duas vezes, a situação das estradas informada pelo Guia estavam incorretas. Na primeira dizia que era estrada pavimentada quando na verdade era um torrão de terra esburacada. Na segunda, dizia que a estrada estava em péssima conservação e quando chegamos, era mais tapete que a Castelo Branco. Portanto, a manutenção deve estar em dia para qualquer tipo de terreno, filtros e óleo novos, freios revisados, estepe em boas condições de uso (se possível mais de um), motor e cambio ok.

5 – Mapas e noções de localização
É imprescindível sua utilização. Para a Expedição Madeira levamos dois: um detalhando todas as rodovias do Brasil, rotas alternativas, condições, postos de polícia, etc. Outro que também mostrava as estradas mas detalhava a hidrografia do país. Por ali acompanhamos toda a parte úmida da viagem. Cada paraná (rio pequeno), cada curva, cada pequeno afluente do Madeira ou Amazonas estavam esmiuçados ali. Com a ajuda do GPS pegávamos as coordenadas e encontrávamos no mapa nossa exata localização. Com isso pudemos fazer uma média histórica e saber por exemplo, quanto tempo de rio Amazonas tínhamos até Manaus, navegando a 16 KM / hora. Outra ajuda sem tamanho do uso de mapas é garantir que se está indo para a direção correta. Por vezes não há muitas sinalizações nas estradas (principalmente as estaduais e municipais), o que pode gerar uma certa ansiedade em saber se está ou não no caminho certo. Olhando no mapa e consultando a localização do sol neste momento, é possível ter indícios se está ou não indo no rumo certo.

6 – Clima e condiçoes
Se você vai navegar em rios, é melhor se manter atento às épocas de cheia e de seca. Fomos para região Amazônica em maio, no fim das cheias. Com o rio transbordando, a navegação é mais tranquila e rápida (no caso de descer o rio). Mais tranquila porque as pedras e bancos de areia do Madeira e Amazonas são tomados pela água, diminuindo bastante o risco de bater nestes perigos naturais. Apenas oara ilustrar: em época de seca ha capitães que não navegam pelo Madeira. Esperam até o próximo ano, quando as chuvas voltam, tornando a navegação mais segura. Mais rápida porque ao descer os rios, contamos com a força das correntezas empurrando as embarcaçoes. Uma viagem de Porto Velho a Manaus em época de cheia, leva de 3 a 4 dias. Em época de rio baixo, de 5 a 7 dias. Daí podemos ter uma idéia da importância das chuvas na região.

7 – Cobertores e afins
Mais uma vez a astúcia de minha adorável esposa e sua mãe se faz presente. Nunca imaginaria que numa região tão quente pudesse fazer tanto frio a noite. Quando vi o cobertor (que ela estrategicamente colocou escondido na caçamba da camionete) logo brinquei com o Maeda. “Estamos numa das regiões mais quentes do Brasil e mandaram pra gente cobertores. Só pode ser piada”, disse. Piada que logo se tornou pesadelo. Bem na primeira noite a bordo do empurrador Paulão e navegando pelo Madeira, percebi que a natureza pode ser cruel. Um sol e calor de rachar a cuca durante o dia. Vento frio e carregado de umidade a noite. A temperatura variava de 36 a 16 graus em menos de 24 horas. Me encolhi, puxei o cobertor e agradeci mentalmente minha amada. 8)

8 – Remédios
Este item é sem dúvida, um dos mais importantes a ser levado em conta numa viagem como esta. Bobagens de nosso cotidiano como gripes, febre, um pequeno machucado, podem acabar com toda a aventura. Para isso, fiz um post específico, abrangendo situações que podem colocar nossa saúde em risco. Por favor, leiam-o em http://expedicaomadeira.wordpress.com/2009/04/08/sobrevivendo-as-intemperies/

Existem mais alguns pontos que gostaria de tratar aqui mas infelizmente meu tempo está escasso. Será assunto de algum próximo post.

Pessoal, obrigado novamente e podem continuar mandando os emails para exmadeira@gmail.com.

Respondo a todos com o maior prazer.


Dias 15 e 16 – Estudo sobre a comunicação humana

09/06/2009

Oi!

Acordei cedo para enfim entender o que é estar no meio do rio Amazonas.

Quando era criança, me maravilhava com um especial sobre a Amazônia feito pelo Jacques Cousteau e transmitido pela Globo. Lembro que ficava acordado até altas horas da noite (ao menos parecia tarde naquela época 07 pm, 08 pm??) só esperando pelas aventuras de Dr. Cousteau. Isso deve ter criado em mim anos de expectativa velada que sequer sabia que existia. Dei uma boa olhada ao redor e era mesmo aquilo. Rio infinito, névoa matinal se misturando aos raios de sol e muita, muita mata.

Passamos pela cidade de Itacoatiara. O navio não pôde atracar no cais devido à cheia do Amazonas. A solução do comandante foi diminuir a velocidade, fazendo com que outros barcos pudesseem encostar, trocando cargas e pessoas em ambos os sentidos.

O resto do dia foi água e mato. Voltei para cabine, liguei o ar-condicionado –sim, graças ao bom Deus poderia ficar por um tempo em uma temperatura menor que a do inverno Amazonense, cerca de 37 graus. Dormi a tarde inteira. Acordei umas 07:30 pm. Tomei um banho gelado e me dirigi até o deck superior. Ja falei isso aqui mas vale a pena reforçar. O céu noturno do Amazonas é um espetáculo a parte, por muito comparável apenas ao céu de outra região extrema do planeta: deserto do saara.

Neste exato momento, passávamos por Parintins. A última cidade do Amazonas em direção ao Pará. Fiquei lá umas 2 horas e pasmem, voltei a dormir. As semanas anteriores de viagem haviam me cansado muito. Em um navio onde não há muito o que se fazer, o ideal é aproveitar para descansar. O dia seguinte era dia de festa. :-)

Acordei com o silêncio dos motores e muita conversa do lado de fora. Estava ainda amanhecendo e nosso navio havia atracado com bastante dificuldade no porto de Óbidos, primeira cidade do Pará no rio Amazonas. Ficamos ali por 1 hora. O transporte fluvial é o que se faz mais presente e obviamente é também o mais importante da região norte. Absolutamente tudo é transportado nestes grandes rios (Madeira, Tapajós, Negro, Solimões, Amazonas). Do trigo à tratores, de gado à petróleo, de pessoas à caminhões. Está tudo la, sendo empurrado por balsas rio afora.

Óbidos tomada pelas águas, primeira cidade do Pará descendo o rio do Amazonas
Óbidos tomada pelas águas, primeira cidade do Pará descendo o rio do Amazonas

Fui atrás do Maeda para cumprimentá-lo pelo seu aniversário. Enfim ele realizava um sonho. Completava exatos 60 anos navegando no Amazonas. Maior felicidade para o bicho era impossível. Andei o navio e o encontrei sentado no bar com seu agora bom amigo Sr. Eliseu. Aproveitou e nos contou uma história que ficou gravada em sua memória.

“Na época de minha infância não era comum comemorar aniversários”, disse.

Continuou: “No entanto, consigo me lembrar de um dia em especial. Estava fazendo 9 ou 10 anos, era domingo e chovia muito. Para comemorar, minha mãe havia feito uma bela macarronada. Daquele almoço-aniversário participava também um senhor que tinha uma prótese na perna e era conhecido como Brito-Perna-de-Pau. Ele olhou fundo em meus olhos e me deu os parabéns. Não sabia exatamente o que devia responder, assim me mantive calado. Então ele novamente olha para mim e diz fazer aniversário em dia de chuva dá muita sorte, por toda a vida do aniversariante. Me aliviei e aquela bobagem me deixou feliz por muito tempo.” O detalhe crucial desta história, é que neste dia choveu muito durante todo o trajeto de nosso navio. Maeda se mostrou extremamente feliz.

Navegamos mais um tantão durante a tarde chuvosa. Não havia muito o que fazer. Conheci um casal de franceses que viajavam ha quase 6 meses e estavam passando por toda a américa do sul. Ficamos jogando conversa fora (eles não falavam inglês então tive de me virar com um portunhol mal falado). De qualquer forma, nestas situações o ser humano tem uma grande capacidade de se adaptar. Depois de 1 hora com alguns grunhidos a sinapse é feita e a comunicação entre as partes é estabelecida de alguma forma. Muita gente tem medo de viajar para determinado lugar só por não falar a lingua local. Eu digo: se esforcem, sejam simpáticos, gesticulem. Ora bolas! Os mais antigos vestígios de hominídeos encontrados pelos arqueólogos datam de mais de 500 mil anos, sendo que o paleolítico começou há dois milhões de anos. A linguagem do homem paleolítico se baseava no início em gestos, sinais e desenhos e mais tarde também na voz. Estamos na Terra já há bastante tempo e se chegamos até aqui, nao precisamos ter medo de nos comunicar.

Voltando: o tempo passou mas a paisagem não. Estamos no Pará, navegando pelo rio Amazonas. Rio que a cada quiômetro percorrido fica um pouco mais largo. Água e mata para todos os lados.

Rio Amazonas: água para frente e para trás. Selva nas margens
Rio Amazonas: água para frente e para trás. Selva nas margens

A noite volto para lhes contar de nossa visita à Santarém e o que as fortes chuvas deste ano fizeram com a cidade.


Uma imagem: mais que mil palavras II

06/06/2009

Prezados leitores,

Hoje é sábado, dia de descanso para mim e para vocês. Não vou escrever uma vírgula. Vocês não precisarão ler.

Aproveito para lhes brindar com algumas imagens inéditas da expedição. Não estão no twitter, nem no Picasa, tampouco no mobypicture.

Chega de lenga-lenga. I really hope you enjoy. :-)

Este post foi feito ao som de Nirvana – Nevermind


Dia 14 – Abalroamento no Amazonas

05/06/2009

Guten Morgen!

[Nota do autor: este blog segue uma linha cronológica de acontecimentos, exatamente como um diário de bordo ou como se fosse uma novela. Algumas vezes, para entender uma determinada situação no presente, se faz necessária a leitura dos posts anteriores]

Era noite, por volta das 10 horas. Nosso navio havia acabado de levantar âncora e navegava na direção de Belém. O que era alvoroço e até certo ponto adrenalina, começava aos poucos a se tornar silêncio. As pessoas tinham acabado de se despedir de amigos e familiares no porto de Manaus e a longa espera para zarpar tinha cansado a todos. Neste momento se preparavam para dormir, rumando para suas redes num movimento quase coordenado. A área do bar começou a esvaziar. Fiquei no deck superior para apreciar o Amazonas noturno e este movimento que só partidas podem produzir, sejam elas numa estação de trem, em aeroportos ou rodoviárias.

Não havia lua evidente e o âmbar escuro do rio Negro se revelava um total breu. A sensação era de navegar no espaço, era preciso acreditar que realmente havia um rio logo abaixo do casco. Olhando para trás ainda conseguia ver Manaus ao fundo, já quase virando um borrão de distantes luzes amarelas; já navegávamos no Amazonas. As margens eram como pequenas sombras que não me deixavam ter idéia da distância média entre uma e outra. Olhando para frente, uma imensidão de escuridão, quebrada de tempos em tempos pela técnica de holofote utilizada para navegação em rios.

Fiquei ali por uns 30, 40 minutos, apreciando o nada e ouvindo –até certo ponto–, o silêncio. Olhei para estibordo e um pequeno barquinho aparecia no horizonte. Iríamos passar ao seu lado. Navegamos mais 10, 15 minutos e o barquinho sempre lá, ainda há certa distância mas cada vez mais próximo de nosso navio. Agora parecia que ele mudava de rumo, como se fosse cortar o rio de margem à outra. De repente, o silêncio total e absoluto foi estabelecido. O motor foi desligado. Por uma fração de segundos, lembrei da estória que haviam me contato sobre estarmos navegando com 1 só motor, pois o segundo estava quebrado. Pensei, é claro, no cronograma. “Quanto tempo levaria para arrumar este motor??” Meu pensamento foi interrompido por um razoavel tranco e novamente com o barulho do motor. Só que desta vez o ronco era outro. Estava em potência total e nos empurrava em direção oposta a qual estávamos navegando. Agora a força era para esquerda e para trás. Para trás?? Não fazia sentido. Olhei novamente para estibordo e vi aquele barquinho. Realizei que na verdade ‘o barquinho’ era o empurrador de uma monstruosa balsa, com dezenas de metros e toneladas de aço que neste momento, cruzava nosso caminho.

Acompanhava esta embarcação a um bom tempo e não havia qualquer indicação luminosa de que ela estivesse empurrando uma balsa. Na noite escura que fazia, tudo o que conseguia ver era apenas o próprio empurrador. No exato momento em que nosso comandante percebeu a balsa e reverteu os motores a toda força, o barco usou o holofote para nos avisar que havia a enorme balsa sendo empurrada rio adentro. Tarde demais. Ainda havia um espaço considerável entre nosso navio e a balsa mas em se tratando de dois monstros de aço navegando embalados pelas correntes do Amazonas, a coisa não é assim tão simples. A reação das embarcações a um comando é mais lento do que se imagina. Olhava tudo de cima. Vi o navio tentando virando para um lado, o empurrador mandando a balsa para outro. Era uma cena nonsense. Havia ainda bom espaço entre nós, os esforços para se livrar da batida era de ambos os comandantes mas no fundo, sabia que íamos bater. Estávamos cada vez mais próximos e a tentativa de mudar o curso parecia em vão. Uns 40, 50 segundos se passaram e então veio o choque.

Lá de cima, a sensaçao era de que seria uma batidinha, um arranhão. Nao estávamos rapido, ao menos nao aparentemente. No entanto, quando se fala em toneladas de ferro e aço, o impacto tende a ser proporcional. O navio bateu de frente com a balsa que cruzava nosso caminho. Os cabos de aço que ligavam o empurrador à balsa faiscaram e estouraram fazendo um alto barulho, como chicotes estalando ao ar. Neste momento achei que o barco (empurrador) iria virar. Balançou forte, de um lado para outro. Os marinheiros se seguravam como podiam. Do nosso lado, tive a sensação de um terremoto. Um grande tremor no navio. As redes balançaram muito e logo vieram os primeiros curiosos assustadissimos olhar o que acontecia. O primeiro forte impacto de nosso navio, empurrou a balsa e a fez desviar de curso de forma que ela nos bateu uma segunda vez, agora ao lado da embarcação. Todos assustados, motores desligados. Os tripulantes de ambas embarcações jogaram cordas e atracaram em conjunto.

Em pouco tempo a Marinha chegou. Vieram barcos, iate, bote com dezenas de militares. Subiram a bordo e avaliaram o que havia ocorrido, os danos provocados, fizeram perícia, analisaram as estruturas. Ficamos ali com a Marinha do Brasil, umas 2, 3 horas. Felizmente e com muita sorte (segundo a Marinha) o abalroamento não trouxe maiores consequências. Nao houve qualquer tipo de vítima. Aparentemente as duas embarcações se chocaram no melhor ponto possível: alguns metros para lá ou para cá, poderia ter ocorrido uma tragédia de grandes proporções. Nosso catamarã tinha capacidade para levar mais de 700 pessoas.

Depois de tudo devidamente periciado, fomos liberados para seguir viagem por volta das 02AM.

Emoção demais para um dia, me juntei ao Maeda e fui dormir. No dia seguinte acordei bem cedo, umas 05:10. Queria a luz da manhã para algumas fotos. Esta é uma delas. Névoa, água e sol no meio do maior rio do planeta.

Rio Amazonas, 05:30AM. Névoa, água e sol.

Este post foi feito ao som de Aerosmith – 2002 – O, Yeah! The Ultimate Aerosmith Hits


Dia 13 – Embarcando no Catamarã. Manaus – Belém

03/06/2009

Opa!

Logo que subimos à bordo de nosso catamarã Rondônia –o maior navio do baixo Amazonas–, duas distintas senhoras que também faziam parte da tripulação, nos levaram à conhecer nossos novos aposentos. Dona Maria e Dona Paula eram as responsáveis pelo bom funcionamento do navio. Coordenavam a cozinha e seus horários, o bar, a enfermaria e a limpeza. Além disso, antes da partida, uma das suas atribuiçoes era a de acompanhar os passageiros de camarote até seus quartos. Subimos dois lances de escada até chegar em nosso andar. No caminho vi as pessoas começando a colocar suas redes. É comum no norte as pessoas dormirem em redes durante a viagem. Os navios e barcos são preparados com grandes salões rasgados por estruturas de ferro para suportar inúmeras redes, uma ao lado da outra, sem qualquer tipo de separação. Quem chega antes consegue escolher os melhores lugares. Neste caso, as bagagens ficam sob um tablado, logo embaixo da ‘cama’ do dono. Chegamos ao camarote. Vejam, parece um nome pomposo mas o camarote é um espaço minimo, de 3 metros por 1, que contém um ar-condicionado (sim, isso salvou!) e 1 beliche. Nada mais. O banheiro era compartilhado com os outros membros de camarote mas não com o pessoal das redes.

Área de redes do Catamarã Rondonia

Colocamos nossas malas no quarto, o trancamos e fomos conhecer o resto do navio. Estávamos no 3 andar e a vista era realmente muito bonita. A Dona Paula havia escutado meu pedido e gentilmente o atendeu. Queria um quarto quase na água, com uma vista privilegiada. Assim, para tirar fotos, era só abrir a porta, apontar e clicar. Andamos por entre o salão de redes do segundo andar e já começamos a conversar com o pessoal. Havia pessoas de todo canto da região norte. Acreanos, Amazonenses, Paraenses, Roraimenses, Amapaenses e sobretudo, Maranhense. Meu Deus, como havia gente do Maranhão. Pra mim, eles ganharam o título de povo mais nômade do Brasil. Viajam muito e não aguentam mais que alguns anos no mesmo lugar. Daqui pra lá, de lá pra cá, pra acolá.

Maeda conversa com Sr. Eliseu. Seu primeiro novo amigo no navio

A saída do navio deveria ocorrer por volta das 14:00 mas como já disse, nestas viagens sempre há o problema de carga. Quando entramos, dei uma boa olhada no porão do navio. Como no caso da balsa Porto Velho – Manaus, parecia não caber mais nada. Ledo engano 2. Esperamos e esperamos e esperamos. Nada do navio zarpar. A esta altura, além das cargas que ainda estavam sendo carregadas, começou um rumor de que estávamos com um dos motores quebrados. Pelo que nos disseram, havia quebrado em sua última viagem subindo o Amazonas no trajeto inverso, de Belém para Manaus. As peças de reposição viriam de São Paulo e seriam colocadas pelo mecânico durante a viagem. Além da carga, estávamos esperando a chegada de tais peças.

Por volta das 07pm o navio começou a dar sinais de que partiria. Todos a bordo, porão já fechado, sem caminhões para descarregar. As voadeiras que não paravam de trazer passageiros também cessaram. Todos se reuniram na parte de trás da embarcação, área a qual contava com um bar (depois conhecido como o coração do navio) e também em outra, mais alta e toda aberta (deck) situada no quarto andar. Lá era o melhor lugar para fotos. Visao em 360 graus e sem nada para atrapalhar. Nesta altura, com o bar já aberto, forte calor e vendendo cerveja como água, todos conversavam e se entrosavam naturalmente.

O próprio Catamarã Rondonia

Algumas horas depois, cerca de 10pm, o navio finalmente levantou âncora, ligou o(s) motor(es) e partiu rumo à Belém. É um acontecimento. As pessoas ficam no deck se despedindo de parentes e amigos que estão no porto. Vi lencinhos sendo jogados por jovens senhoras, gente chorando, gente feliz como se partisse para um cruzeiro, alguns gritavam ‘te amo’ em direção à multidão que ficava, outros apenas um brado de ‘uhuuuu’.

Agora estava mais tranquilo. Olhei no cronograma o dia máximo em que poderíamos chegar a Belém de forma que conseguíssemos cumprir a risca a terceira etapada da Viagem. Neste momento estávamos exatamente no meio da segunda, apelidada por nós de ‘fase molhada’: navegando pelo Madeira e Amazonas de Porto Velho à Manaus e Manaus à Belém. Tínhamos um atraso de cerca de 12 horas, nada que não pudesse ser contornado.

Este post foi feito ao som de GreenDay – 21st Century Breakdown


Expedição Madeira – Décimo segundo dia – Continuando

01/06/2009

Continuando nosso décimo segundo dia de expedição, visitando Manaus.

Após a visita ao Teatro Amazonas, voltamos ao hotel para tomar banho, descansar um pouco e comer algo. Ja eram quase 3 da tarde e a caminhada de alguns quarteirões nos fez suar em bicas. É impressionante como absolutamente todos os locais fechados de Manaus, são climatizados. Sinceramente, não sei como as pessoas não ficam tortas com tamanha mudança de temperatura, tão repentinamente. Não sei se fora é muito quente ou se é o a regulagem do ar-condicionado quer deseja transformar aquele lugar perto do trópico de capricórnio em polo norte. Sei apenas que ao entrar num lugar destes (seja hotel, banco, restaurante), a mudança de temperatura é tão forte e rápida, que te dá uma sensação estranha. Parece que atravessa um portal para outra dimensão.

Tomei banho e enquanto Maeda dormia, aproveitei para atualizar este blog (sim, vocês não me dão descanso). Quando era cerca de 05:30pm, Maeda acordou. O bicho estava alucinado de fome. Eu também. Àquela altura, meu último alimento havia sido o jantar da noite anterior, à bordo do Paulão e servido exatamente às 05:00pm. Além é claro, das 2 latas de redbull que havia acabado de tomar. A fome é uma coisa estranha. Se você fica umas 10 horas sem comer nada, ela aperta. No entanto, quanto mais tempo passa sem comer, parece que ela começa a ir embora, como se não fosse necessário se alimentar.

Ok. Queria comer em Manaus mas queria comer com estilo. No meio da tarde, enquanto estávamos no museu de arqueologia, um grande fotógrafo holandês que me segue no twitter e acabou se tornando um bom amigo — Cornell Evers ficou bastante tempo em Manaus fotografando os portos e estivadores para um projeto pessoal–, passou a dica do boteco mais famoso da cidade: o bar do Armando. O que ele recomendava ali era a geladíssima cerveja e o prato mais famoso do Armando: Sanduiche de Pernil. Pois bem, fomos para lá. Coincidentemente, o bar do Armando tambem era proximo ao nosso hotel. Chegamos: um lugar simples, com arquitetura antiga, fotografias em preto-e-branco, azulejos antigos, discos de vinil e é claro, mesas de plástico dispostas na calçada. Sentamos e logo avistamos ao lado do caixa, um Senhor Grisalho, portador de um jaleco branco. Aquele só podia ser Seu Armando.

Maeda descansa no Bar do Armando. Ao fundo, Teatro Amazonas. Manaus, AM

Ouvimos a história. Já se passaram mais de três décadas desde que seu Armando, um legítimo Portugues, abriu as portas de seu bar, logo em frente ao Teatro Amazonas. Pelo que nos contou, sua idéia original era que ali funcionasse uma mercearia. No entanto, a concorrência das grandes redes de supermercado que começavam a chegar em Manaus o forçou a mudar de foco. Teve a idéia então de montar o célebre boteco. Aos 74 anos é o próprio Seu Armando quem fecha o caixa todas as noites, depois de passar o dia inteiro atendendo aos turistas e fregueses. Anda pelo salão, pega pedidos, leva cerveja às mesas e observa o movimento. O pernil assado é servido no sanduíche ou também como porção. Quem tempera e assa a carne por quatro horas, todos os dias, é a Dona Maria, esposa de seu Armando.

Embora tenha achado o pernil um pouco salgado, o lugar é bastante agradável e de história viva. O preço, pouco parecido com os da região, chegando a me lembrar São Paulo (uma cerveja de ampola por 5,50, salvo engano de minha parte). Ficamos ali umas 2 horas enquanto o trânsito de Manaus de acalmava. Relembramos a viagem até o momento e nos preparamos para o dia seguinte, quando embarcaríamos no catamarã rumo à Belém.

Pagamos seu Armando e voltamos ao hotel. Escrevi mais um pouco e a fome voltou a bater. Nao havia comido muito o pernil porque o achei muito salgado. Assim, fui à portaria do hotel perguntar sobre algum restaurante nas redondezas. Impressionantemente, a unica coisa que havia, era uma cantina, uns 3 quarteirões dali. Putz, comida italiana num calor umido estupefante de sei la quantos graus?? Não, definitivamente não era uma boa idéia. Minha barriga roncou novamente. Agora, aquela cantina parecia estar cada vez mais perto de mim, assim como, a idéia de ir num italiano começava a fazer algum sentido. Voltei para o quarto e chamei o Maeda. Ele virou para o lado, roncou e gruniu algo como ‘nao quero ir’. Peguei minha carteira e caminhei. Chegando no restaurante vi o cardápio que mostrava massas, pizzas, e (ufa!) algumas opções de salada. Nao titubeei, peguei a salada da casa: rucula, tomate, aspargos, palmito e outras cositas. Foi a primeira vez na vida que comi apenas salada. Com o calor insessante, nao havia outra escolha possível.

Barriga cheia, pedi um sorvete como sobremesa. Ahhh, aí era querer demais. Nao serviam sorvetes mas poderia escolher por um sem fim de doces quentes, italianos. No way. Paguei a conta (12,50!!!!) e voltei satisfeito ao hotel. Capotei e só fui acordar na manhã seguinte.

Chamei o Maeda, arrumamos nossas coisas, tomamos café, fui até o palacete provincial para tirar algumas fotos. Na volta, fechamos a conta do hotel, fomos ao banco pegar mais um pouco de dinheiro e rumamos ao infernal trânsito e caos do porto de Manaus. Caía uma chuva muito fina, que ao invés de resfriar ajudava o lugar a se tornar uma sauna. Estavamos dentro do carro, na fila do porto, a caminho de embarca-lo. Como não tinhamos ar-condicionado, optei por deixar o vidro aberto e me molhar. Era melhor que ficar ali dentro, cozinhando lentamente como um pernil em véspera de natal.

Porto de Manaus

Enfim chegou nossa vez. Pagamos a taxa de entrada (estes portos são todos esquisitos. Taxas são cobradas a deriva. Pagamos 10,00. Um amigo com uma camionete Frontier pagou 50,00. Outro que havia embarcado uma moto, pagou 70,00. Nada disso faz sentido) e o pessoal do navio se encarregou em colocar o carro no porão.

Agora sim, estávamos prontos para nos despedir de Manaus e partir para Belém.
Aguardem os próximos capítulos.

Este post foi feito ao som de Marisa Monte – Barulhinho bom.


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