Expedição Madeira – Histórias Pitorescas

09/09/2009

Ola!

Este será um post rápido, só para lhes contar uma novidade (se não quiserem ler, pulem até o fim do post para ver o vídeo).

Quando partimos rumo ao norte do Brasil, a primeira coisa que levei até o carro no momento de carregá-lo foi um bag repleto de CDs. Achei sinceramente que Maeda faria o mesmo, uma vez que ambos somos viciados em música, mas com gostos musicais totalmente distintos. Para minha surpresa ele disse que iria ouvir o que eu tinha levado, sem maiores problemas. – OK, retruquei. Mas aqui só tem Punk-Rock e Hardcore Californiano. É isso que você vai ouvir pelos próximos 30 dias, disse rindo. Ele riu de volta e me assegurou que nós passaríamos boa parte do tempo ouvindo música de raiz. Não entendi o comentário, deixei pra lá. Liguei o carro e começamos a viagem.

Da capital de São Paulo até Três Lagoas no Mato Grosso do Sul, ouvimos algumas grandes bandas: Offspring, NoFx, Misfits, GreenDay e por aí vai. Após quase 8, 9 horas de viagem, eu mesmo não aguentava mais o som alto no ouvido. Já com dó de Maeda, desliguei pela primeira vez o cd-player do carro. Olhamos aliviados um para o outro e continuei a dirigir. Passamos pela capital Campo Grande e rodamos mais algumas centenas de quilômetros. Quando a noite chegava e um certo tédio se fazia presente, tomei um susto com um berro vindo do amago de Maeda, quebrando o costumeiro barulho do pneu rodando sobre o asfalto.

O berro na verdade era ele começando a cantar suas versões de clássicos da nossa música caipira. Maeda sempre foi um cara requisitado em churrascos e comemorações dos amigos. “Maeda, vem aqui tocar uma moda pra mó da gente ouvir”, alguém próximo à churrasqueira grita. E lá vai ele com seu violão entreter a galera. Essa fama eu já conhecia, havendo escutado inúmeras vezes o dito-cujo cantando e tocando. No entanto, naquele contexto, longe de tudo e rumando ao extremo do Brasil, parecia que sua música caipira de raiz se encaixava como uma luva. Então, ele passou os próximos 40 minutos cantando de maneira afinada e consistente: Menino da Porteira, India, Majestade o Sabia, Chico Mineiro, Marvada Pinga.

Pessoalmente não sou o que se pode chamar de fã deste estilo. Como um amigo costuma dizer, sou restrito, restritivo e chato quando o assunto é música. A minha verdade é sempre mais verdade que a dos outros. Todavia, ao contrário do que muitos pensam, sei sim apreciar boa música quando ela é realmente boa. Passamos os dias seguintes intercalando meu Punk-Rock com a música Caipira de Maeda. Me acostumei tanto que já cantava mentalmente as músicas. Sabe, quando a música gruda na cabeça e não sai de jeito nenhum?? Aconteceu isso comigo com a “Jão de Barro”. Dormia e acordava com o João de Barro na cabeça. Nestes casos não há muito o que fazer, só o tempo cura.

Maeda grava violão e voz no estilo mais old school possivel. Estudio Baroli & Sia em Campinas.

Maeda grava violão e voz no estilo mais old school possivel. Estudio Baroli & Sia em Campinas.


Enfim. Gostei tanto de Maeda cantando à capela dias a fio, que prometi que o levaria de qualquer jeito ao estúdio de um amigo para grava-lo. Foi extremamente difícil convence-lo, mas nada que um pouco de chantagem emocional não pudesse resolver.

Quando voltamos a São Paulo conversei com meu bom amigo Felippe, do Estudio Baroli & Sia e logo agendamos um sábado. A princípio não contamos ao Maeda. Falei que era apenas um churrasco na casa de um amigo. Íamos apenas comer uma picanha, tomar cerveja e jogar conversa fora. E os 15 primeiros minutos foram realmente mais ou menos assim. Como já estávamos lá, deveríamos aproveitar o estudio para gravar uma brincadeira, disse. :-)

Pronto! Felippe posicionou os microfones para Voz (AKG) e Violão (Shure), testou os timbres e mandamos ver. Fizemos a gravação no estilo mais old-school possível. Maeda cantava e tocava ao Vivo e os microfones captavam a ambiência. O resultado foi, sob meu ponto de vista, excepcional. Em uma única tarde conseguimos gravar 13 musicas inteiras, sem parar. Coisa que a maioria de artistas de grandes gravadoras não faria em 1 semana (é sério).

Bom, pra encurtar a conversa, criei um canal no Youtube para colocar estes devaneios do Maeda.
Para acessá-lo basta ir para: www.youtube.com/expedicaomadeira. Aproveitando, incluí aqui mesmo neste post, uma das gravações.

Espero que gostem.


Dia 20: início da terceira fase

20/08/2009

Arriba amigos!

Entramos no carro e permanecemos em absoluto silêncio.

Enfim, o que voltaria a ser nosso habitaculo pelo interior do Brasil

Enfim, o que voltaria a ser nosso habitaculo pelo interior do Brasil

Foi um momento estranho. De alguma forma, sabíamos que a aventura estava chegando ao fim. Os últimos 19 dias haviam sido de uma intensidade ímpar: lugares, pessoas, culturas, gastronomia e a geografia da amazonia nos fizeram –como se diz atualmente nas rodas de executivos– pensar fora da caixa, revendo conceitos e quebrando paradigmas. A região Amazônica é, cada dia mais, de grande importância não só para o Brasil como para todo o mundo, tanto por suas reservas naturais de biodiversidade quanto por seu papel mandatório no regime de chuvas na região sul do continente e outras poderosas implicações no clima planetário. Assim, a Amazônia Legal se condensa como uma âncora em que fatores ambientais se somam a variáveis culturais e históricas que ajudam a definir o que, afinal, é o Brasil.

A única certeza que tínhamos naquele momento é que as impressões, fotografias e anotações que fizemos ao longo do caminho, foram sem dúvida, as últimas possíveis de terem sido feitas por uma equipe de expedição, sobre a Amazonia como ela realmente é. A região passa nos últimos anos (intensificado no segundo semestre de 2009) por profundas mudanças que vêm alterando sua face. O progresso muda a Amazônia dia a dia. Muitas de suas características começam a se perder, e outras tantas o farão a partir de obras sócio-econômicas que se fazem necessárias, execução do PAC e ainda, outras fontes de transformação.

Frente a essa realidade, nosso único objetivo sempre foi mostrar ao brasileiro, através de uma visão pessoal e intransferível, qual é a realidade da Amazônia, como ela se incorpora cultural, ambiental e socialmente ao Brasil contemporâneo. A informação é, afinal de contas, um vetor básico para a manutenção de culturas. Nos deu de certa forma, uma sensação de missão cumprida. Mas ainda tínhamos muito o que andar. Então…

Os segundos quase infinitos em que o silêncio imperou foram quebrados pela voz do Maeda: “E aí? Temos combustível?”. Estávamos com meio tanque de alcool, mas como não conhecíamos nada da estrada dali pra frente, achei melhor completar com gasolina a fim de termos maior autonomia de rodagem. Sob protestos do Maeda pedi ao frentista: “Complete com gasolina, por favor”. Tanque cheio, caímos enfim na estrada.

De Belém a Castanhal, excelente pista.

De Belém a Castanhal, excelente pista.

Saindo de Belém, percebi o quão grande essa cidade é. Tive a sensação de estar em São Paulo. Geralmente quando você vai viajar, fica ao menos uns 30 minutos na rodovia até conseguir sair efetivamente da cidade. Rodamos, rodamos e rodamos até que chegamos ao começo da rota: BR-316. Reconheço que o que havia ouvido falar sobre as estradas do interior do Pará, Maranhão e Tocantins não era nada bom. Ainda mais que, contextualizando àquele momento, tivemos um recorde histórico de chuvas na região, o que poderia contribuir efetivamente para a degradação da pista. Tivemos uma agradável surpresa: até a cidade de Castanhal (PA) foram cerca de 38 quilometros de pista excelente. Parecia um tapete, sendo um excelente início para nossa jornada descendo pelo interior do Brasil. Mas nem sempre o que é bom dura tanto. Andamos mais um pouco e entramos na famosa BR-010, mais conhecida como Belém-Brasília. Os proximos 100, 120 quilometros foram realmente ruins.

Um dos 'buraquinhos' na BR-010

Um dos 'buraquinhos' na BR-010

O estranho é como o conceito de ruim pode mudar de uma hora para outra, basta que se tenha um comparativo extremamente pior que o original para transformar uma coisa ‘ruim’ em ‘boa’, o que acontecerá em breve, acompanhem. :)

Arvores carregadas ao longo de todo o caminho Para - Maranhão

Arvores carregadas ao longo de todo o caminho Para - Maranhão

A pista tinha muito buraco e estava mal sinalizada. Tínhamos que misturar com cautela velocidades maiores com menores, desviar de verdadeiras crateras e por vezes, até invadir a pista contrária (o que é comum na região) para conseguir passar. As margens da estrada já foram totalmente desmatadas, mas percebe-se que além do gado, ha muita cultura da região: Açaí, Pupunha, Mandioca. Chegamos próximos ao fim da região Amazonica — levando em conta a Amazonia Legal, o Maranhão também tem sua parte. Cruzamos a fronteira entre Pará e Maranhão exatamente as 15:40. Dados histórico, Maeda me pediu adivinhem o que? Sim! Posicionamento geográfico. Sinceramente, ja estava até com saudade disso.

Campo de grãos - próximo a divisa entre Pará e Maranhão

Campo de grãos - próximo a divisa entre Pará e Maranhão

Marquei
Latitude: 4 45′ 26”
Longitude: 47 52′ 65”
Altitude: 140 mts

Nossa meta era chegar a Palmas. Continuamos rodando até escurecer. Devido a situação das estradas e também perigo de assalto, não dava para continuar a viagem a noite. Assim que o sol se foi, dirigimos até a cidade mais próxima: Porto Franco, Maranhão.

Sério, no próximo post vou lhes contar um pouco sobre esta… errrrr… pitoresca cidade e o pulga’s (*hotel* carinhosamente apelidado por mim). Fechamos o quarto de hotel por R$15,00 e dormimos.

To be continued…


Tempo

06/08/2009

Olá amigos.

Este mini-post é apenas para me desculpar.

Estou as voltas com a finalização de vários projetos e no momento me falta tempo para terminar a odisséia da Expedição Madeira. Prometo que até a próxima segunda-feira, 10/08, volto a atualizar este blog e lhes contar como foi nossa volta passando pelo interior do Pará, Maranhão, Tocantins, Goias, Distrito Federal, Minas Gerais e enfim, São Paulo.

Quem quiser falar conosco sobre a expedição, impressões da amazônia ou ainda qualquer outro assunto, pode usar o email exmadeira@gmail.com

Prometo que respondo todos.

Abraços!


Dia 19: um Brasil que a escola esquece de ensinar

26/07/2009

Jambo! (agora você sabe como dizer “Oi” em Suaile!)

Depois de um dia cheio e emocionante conhecendo o Ver-O-Peso e tudo o que ele agrega –Mercado de Ferro, Mercado da Carne, Praça do Relógio, Doca, Feira do Açaí, Ladeira do Castelo, o Solar da Beira– e obviamente após alguns chopes amazônicos artesanais na Estação das Docas, estávamos prontos para voltar ao hotel e enfim, dormir.

Viela do Centro Histórico de Belém

Viela do Centro Histórico de Belém

Quando fomos até a Estação das Docas, resolvemos deixar o carro de lado e aproveitar a caminhada de pouco mais de 2 quilômetros para conhecer melhor a real Belém. Por toda a cidade é possível presenciar construções seculares, onde o estilo europeu se faz fortemente presente. Seja nas vielas do centro histórico ou nas largas avenidas que permeiam as Docas, a bela arquitetura enche os olhos. –Caros, abro um parenteses aqui pois acredito ser importante lhes situar historicamente. No momento em que a família real portuguesa desembarcou no Brasil, Belém tinha a mesma importância que a então capital Rio de Janeiro. Neste contexto, Belém se tornou a Capital das Especiarias. Mais tarde, no período áureo da borracha, o município recebeu inúmeras famílias européias, fato que efetivamente influenciou a arquitetura de suas edificações. Nesta época Belém ficou conhecida como Paris n’América. Atualmente moderna como só uma cidade cosmopolita pode ser, impressiona pelo fato de não ter perdido o ar tradicional das fachadas dos casarões, das igrejas e capelas do período colonial. — Pois bem, descemos até a Estação das docas presenciando tudo isso, o velho e o novo, o preservado e o abandonado. Cruzamos quarteirões, pegamos atalhos, entramos em ruazinhas, pedimos informação.

Construção Secular no centro de Belém aparentando estar abandonada

Construção Secular no centro de Belém aparentando estar abandonada

Tá. Tudo muito bonito, bem legal, pessoas gentis, chope excelente, boa conversa. Chegou a hora de deixar as Docas e voltar ao hotel. Pagamos a conta e rumamos em direção ao que, em nossa cabeça, era a direção do hotel. Andamos, andamos e andamos. Passamos por ruas escuras, largas, pequenas, desertas, cheias de gente e nada de chegar ao dito-cujo. Maeda não quis dar o braço a torcer. Na cabeça teimosa dele, pedir informação era assumir um atestado de incompetência. Ele tentava fitar o horizonte procurando por onde o sol se pôs. Desta forma, conseguiria descobrir os pontos cardeais e nos dar a direção correta até o hotel. Não dava pra usar o cruzeiro do sul porque o céu da cidade não permitia.

Foto tirada a esmo enquanto procuravamos o caminho de volta ao hotel.

Foto tirada a esmo enquanto procuravamos o caminho de volta ao hotel.

Andamos mais 1 hora e nada. O pior é que não tínhamos o endereço do hotel e (pasmem!!!) havíamos esquecido tambem seu nome: hotel Regente. Saímos num amadorismo de botar medo. Sem saber a direção por onde voltar, sem saber a rua, bairro, nome do hotel ou qualquer outra informação que nos situasse. Lembrei do conselho dado por uma amiga, quando cheguei à São Paulo ha uns 11 anos. – “Quando se perder, basta ir no reto eterno. Vá sempre reto sem hesitar. Em algum momento você deve sair numa grande avenida que irá lhe levar até seu destino”. Parece bizarro mas eu garanto que isso funciona. Ja usei várias vezes em São Paulo e neste dia usei em Belém. Subimos e subimos até chegar numa grande avenida. Maeda lembrou de termos passado por lá e enfim conseguiu nos dirigir até o hotel. Chegamos, deitamos e dormimos como pedra.

Nada como uma noite de sono numa cama de verdade, sem se preocupar com pernilongos, pulgas, jacarés, onças, anacondas e afins. Acordamos cedo, tomamos café, malas pro carro e fomos direto para o que seria nosso último passeio em Belém antes de seguirmos com a expedição: o Forte do Castelo do Senhor Santo Cristo do Presépio de Belém (ufa!), mais conhecido como Forte do Presépio. :-)

Forte do Presepio - Belém, Pará

Forte do Presepio - Belém, Pará

O Forte, assim como a primeira capela de Belém, tiveram sua construção iniciada em 1616, por Castelo Branco. No contexto do levante dos Tupinambás, a povoação e o forte foram atacados pelas forças do chefe Guaimiaba, que pereceu em combate em 1619. Danificada, essa primitiva fortificação foi substituída por outra mais sólida, com forma quadrada, feita de taipa de pilão. Depois, passou por sucessivas obras, sendo que a última delas foi finalizada em 1868. O Forte contava agora com quartéis, casa, uma ponte sobre o fosso, um portão e uma muralha de pedras pelo lado do mar. Este patrimônio está na origem da fundação de Belém e da colonização portuguesa da Amazônia, no século XVII. É um lugar que transcende aventuras, lutas e descobrimentos, nos levando à um Brasil cuja magnífica história de sangue e suor não é contada em nossas escolas.

Turisticamente falando, o Forte do Presépio e todo o seu entorno é um patrimônio que está preparado pelo governo do Pará para receber adequadamente seus visitantes. O lugar é de fácil acesso, limpo, bonito, com pessoas preparadas para atender e conversar com propriedade sobre o local.

Se você é um canhão do Forte do Presépio, esta será sua visão por muito tempo

Se você é um canhão do Forte do Presépio, esta será sua visão por muito tempo

Depois de ficar por quase 3 horas ali, voltamos ao carro e nos preparamos para dar continuidade à aventura. Ha quase 2 semanas não dirigia de verdade e naquele momento iríamos voltar à nossa jornada pelo asfalto –que em alguns momentos seria melhor que não existisse. Você entenderá o porque mais para frente. Agora vamos para a terceira e última fase da Expedição Madeira, passando pelo interior do Pará, Maranhão, Tocantins, Goias, Distrito Federal, Minas Gerais e enfim de volta a São Paulo.

Este post foi feito ao som de Foo Fighters – Echoes, Silence, Patience And Grace


Dia 18 – Belém: belezas e riquezas – Parte 2

15/07/2009

… continuando a expedição por Belém

Passamos a manhã inteira no Ver-O-Peso: frutas da amazônia, peixes, mariscos, camarões, castanhas, pimentas, pessoas, o famoso artesanato de Marajoara e centenas de garrafadas. A propósito: já lhes contei sobre Dona Tieta, famosa vendedora de garrafadas que conhecemos por lá? Uma mulher forte, com sangue índio e que faz suas próprias garrafadas com receitas centenárias de seus antepassados. Engraçada e feliz, era quase caricata. IMG_5007
Depois de vender o ‘Viagra Natural’ para o Maeda, me propôs um negócio: queria que eu fosse seu representante em São Paulo e passasse a vender as garrafadas nas feiras da capital. Ainda segundo Tieta, o fluxo era simples: eu levava algumas dezenas de poções e conforme fosse vendendo, faria novos pedidos por telefone. Ela então me enviaria rapidamente, em no máximo 3 dias, novo estoque. Por alguns instantes me imaginei como vendedor de garrafadas numa feira de São Paulo. Imagem mais bizarra impossível. Agradeci a Dona Tieta, peguei o telefone dela e prometi –por educação– pensar no assunto. Ficamos na barraca de Tieta por quase 40 minutos, ouvindo as mais variadas histórias sobre seus antepassados indígenas, ocultismo, mau-olhado, fórmulas e espíritos vagantes. Foi uma experiência engraçada e antropologicamente muito rica.

Saímos do Ver-O-Peso por volta das 13:00 e fomos direto pro hotel. Belém era um marco em nossa viagem. Estávamos para iniciar a terceira e última fase da expedição. A primeira foi de São Paulo a Porto Velho por estrada. A segunda, que acostumamos a chamar de fase molhada, foi o trajeto pelo rio Madeira, Amazonas, Negro, Solimões e Tapajós percorrendo Porto Velho – Manaus – Belém. Agora em Belém, devíamos nos preparar para terceira e última fase, descendo pelo Norte e Centro-Oeste brasileiro até retornar a São Paulo. Assim, para descansar um pouco, nos instalamos no hotel Regente onde pudemos enfim ter uma cama de verdade para dormir (ah, claro! e ar condicionado.

Maquina de vapor que fornecia energia para os equipamentos que eram operados no porto

Maquina de vapor que fornecia energia para os equipamentos que eram operados no porto

Pense num lugar quente. É Belém (ou Santarém) ou qualquer outro lugar do Pará. Estado quente este!). Segundo palavras do próprio Maeda: “Depois de tantos dias nas embarcações, este lugar parece um paraíso. Mas temos que lutar e não podemos amolecer neste momento, caso contrário, podemos ir embora sem conhecer nada“. E foram com estas palavras que Maeda me cutucou e me empurrou da cama depois que estava ha quase 30 minutos dormindo o melhor sono de toda a minha vida. Sério, tive ódio.

Nota do autor: já havia chovido em Belém, assim poderíamos sair tranquilos. Pra quem não sabe, uma pergunta muito comum por lá é: “Você vai sair antes ou depois da chuva?” A primeira vista pode parecer uma questão estranha, mas ela é bastante válida para a região. Devido ao clima quente e úmido, em Belém chove praticamente todos os dias e (acredite!), quase com horário marcado: por volta das 3h da tarde. Sendo assim, normalmente as pessoas aproveitam para fazer uma sesta e descansar depois do almoço. É um costume local que deveria ser copiado pelo resto do país. Acho que vou sugerir isso no meu trabalho (só falta a chuva marcada). :-)

Estação das Docas em Belém - Rio Guamá

Estação das Docas em Belém - Rio Guamá

Pois bem. Movido pelo espírito desbravador de Maeda –e ainda com uma cara ranzinza– calcei minhas botas e descemos a pé até a Estação das Docas, cerca de 2 quilômetros do hotel. Surgido a partir da revitalização do antigo porto da capital paraense, o espaço abriga três armazéns e um terminal de passageiros. O Armazém 1 é conhecido como Boulevard das Artes, o segundo, passou a ser o Boulevard da Gastronomia e o terceiro o Boulevard das Feiras e Exposições. Cada pedaço da Estação das Docas guarda um pouco da história, do exótico e do pitoresco da região. É praticamente uma mistura de aula de cultura local, artes, história e culinária. O espaço dos Boulevares é resultado de um cuidadoso trabalho de restauração dos armazéns de produtos do porto da capital. Os gigantes galpões de ferro inglês são um exemplo da arquitetura característica da segunda metade do século XIX. Ali também está localizada uma excepcional cervejaria artesanal (Amazon Beer), a qual me apeguei enquanto Maeda passeava pela terceira vez num dos museus da Estação –desculpe caro leitor, mas a verdade sempre tem de ser dita.

Guindates em sequência - Estação das Docas - Belem, Para.

Guindates em sequência - Estação das Docas - Belem, Para.

E já que estamos neste assunto, Belém também é chope. O pessoal da Amazon Beer possui uma técnica artesanal de produção do chope que segue rígido processo e pode ser totalmente acompanhado pelo cliente. Através de uma parede de vidro transparente, é possível ver o vistoso maquinário de doze tanques de cobre e aço inoxidável, cada um com capacidade para 1200 litros, segundo Antonio, nosso garçom-amigo. Amazon Beer. Perfeito para o fim de tarde em Belém.

Chope da Amazon Beer. Perfeito para o fim de tarde em Belém.

Chope da Amazon Beer. Perfeito para o fim de tarde em Belém.

Tirado a 2 graus negativos e servido num copo resfriado na hora, o líquido sai da chopeira sob uma espuma densa, com os clássicos 3 centímetros de espessura. Sob a supervisão do mestre-cervejeiro, são produzidas diversas versões. A clara, do tipo pilsen, chama-se amazon forest. Com malte torrado, a River tem teor alcoólico maior, de 6 graus (Maeda tomou 2 dessas, eu, 1 milhão). Só não consegui experimentar a famosa bacuri beer, que recebe essência da típica fruta regional. Ainda segundo Antonio, devido ao custoso processo de extração da essência do Bacuri, esta versão de cerveja é feita apenas uma vez por semana e acaba rapidinho. Bom, arrisco a dizer que a Estação das Docas é o melhor lugar de Belém para se tomar um chope no fim da tarde. Com mesas dispostas na área externa das Docas, a poucos passos da margem da Baía do Guajará, você pode degustar a deliciosa bebiba e ao mesmo tempo, contemplar um pôr-do-sol único.

Bom, vou parar por aqui hoje.
Ainda há algumas coisas de nossa passagem por Belém que gostaria de compartilhar com você.

Aguarde.


Dia 18 – Belém: belezas e riquezas – Parte 1

03/07/2009

Acabou enfim nossa última noite a bordo do Catamarã Rondônia, estávamos em Belém. O navio que havia sido nossa morada pelos últimos 5 dias, agora enfrentaria mais uma vez, a forte correnteza contrária do Amazonas para voltar até Manaus, de onde partiu.

Acordamos as 05:30. Maeda foi tomar banho, então aproveitei o início da luz da manhã para dar a última volta no navio. Consegui uma das sensações mais estranhas de toda a viagem, um sentimento que sinceramente, ainda não sei como classificar. Com os motores desligados e com quase ninguém a bordo (a maioria das pessoas havia desembarcado na noite anterior), o silêncio total imperava. Era possível ouvir o barulho de ferro se retorcendo e das águas batendo com certa violência no casco de nosso navio. A visão do segundo e terceiro andar era algo estranho. Aqueles quase infinitos corredores, repletos de gente, redes e malas, agora se transformavam em imensos salões onde o simples fato de pisar mais forte, era motivo suficiente para produzir um eco substancial. Me apoiei em uma beirada, com o Navio à minha direita e o Amazonas à minha esquerda. Acendi um cigarro e passei a contemplar o nada, lembrando e assimilando as pessoas e histórias que conhecemos nos últimos dias. Ouvi passos subindo a escada. Era Maeda me chamando para descermos até o porão, onde nosso carro repousava tranquilamente.

Catamarã Rondônia após chegada a Belém. O vazio de ninguém a bordo

Catamarã Rondônia após chegada a Belém. O vazio de ninguém a bordo

Ja era por volta de 07:00 e precisávamos aproveitar a maré alta da manhã para retirar o carro do navio. Com a ajuda da tripulação e de mais duas longas tábuas de madeira maçiça, Maeda conseguiu o feito. Embicou a parte de trás do carro em direção às madeiras e aguardou o assovio de um tripulante. Depois foi só rezar e pisar no acelerador, vencendo os poucos metros que ainda separavam o catamarã do continente. Nos despedimos dos amigos e parte da da tripulação que ainda estavam por ali. Saímos para o porto e aguardamos até as 08am, quando estaríamos liberados pelos oficiais a deixar o porto e efetivamente entrar em Belém.

Maeda, com ajuda da tripulação, retira nosso carro do porão do Navio

Maeda, com ajuda da tripulação, retira nosso carro do porão do Navio

Já em terra firme, meu corpo continuava a balançar de um lado para outro. Perguntei ao Maeda e o mesmo ocorria com ele. Eu acho que é como um movimento de compensação provocado pelo labirinto ou algo que o valha. Enquanto estávamos a bordo não percebíamos. O navio jogava de um lado pro outro e nosso corpo automaticamente compensava, de lá para cá. É uma sensação bizarra porque o movimento é bastante sutil e automático. Quando me dava por conta, percebia estar balançando. É quase como uma constante e levíssima tontura. :-)

Pois bem. Depois de vencermos as 860 milhas náuticas desde Manaus, finalmente estávamos em Belém, uma cidade que transpira cultura, história e gastronomia. Como ainda era cedo, aproveitei o sol da manhã (as usual) para algumas fotos. Já tínhamos um objetivo em mente e fomos direto para ele: o clássico dos clássicos em Belém, o mercado de “Ver-O-Peso”. O mercado é simplesmente espetacular. Construído em 1625, fica as margens da baía do Guarajá. Tem esse nome tão peculiar por causa das “Casas de Ver-o-Peso”, projetadas no Brasil em 1614, para conferir o peso exato das mercadorias e cobrar os respectivos impostos para a coroa portuguesa. O Ver-o-Peso é o maior mercado da América Latina, compreende uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de construções históricas, dentre elas o Mercado de Ferro, o Mercado da Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira.

O lugar é uma explosão de cores, sabores, cheiros, sons e gente de todo tipo, de todo lugar. Entramos pela feira do Açai e eu empolgadíssimo tirando foto de tudo. Percebi um senhor bem idoso, vendendo castanhas, ainda dentro do ouriço em estado bruto. Eram muitas e estavam dentro de um grande balaio. A foto seria bonita. Me aproximei, sorri e apontei a camera para os frutos. Meu Deus do Céu. O senhor ficou realmente muito bravo, disse que era proibido tirar fotos das castanhas dele, que era pra eu sumir dali e sutilmente ameçou ir para as vias de fato (tadinho, ele mal conseguia ficar em pé). Entendi a mensagem e me mandei dali. Era só um velhinho ranzinza com o saco cheio de turistas que tiram fotos de ouriços. A parte ruim é que perdi uma foto que realmente seria ótima em PB. Ainda mais se ele e sua face craquelada aparecessem. Continuamos andando por toda a feira do Açai, conversando com as pessoas e tirando fotos.

Feira do Açai, mercado de Ver-O-Peso

Feira do Açai, mercado de Ver-O-Peso

A fome bateu e fomos tomar o mais típico café da manhã paraense, ali mesmo no ver-o-peso. Sentamos numa barraquinha e pedimos peixe frito, Açai e farinha d’agua. O peixe, uma tainha inteira deliciosa. Morto de fome, peguei um prato, coloquei o peixe e enchi de Açai ao lado. Levei um pedaço de peixe à boca e depois uma boa colherada de Açai. Ave mãe! Definitivamente o Açai não era o que esperava. Açai pra mim era como estes que se compram em São Paulo, doces, que já vem misturados com guaraná e granola. O Açai de verdade é muito, mas muito mesmo, diferente. A consistência até que é parecida mas o sabor é bastante amargo e carregado de … sei lá … terra??! Acabei com o peixe e deixei o Açai. Maeda olhou pra mim com uma cara de ‘larga de frescura e pára de me fazer passar vergonha rapaz!’, mas não teve jeito. Não deu para mim e ele acabou tomando a tigela inteira de açai. E adorou.

Fruta Amazonia - Ver-o-Peso

Fruta Amazonia - Ver-o-Peso

Depois passamos por uma grande barraca de frutas regionais onde conhecemos Dona Carmelita. Esta adorável senhora nos aguentou por quase 2 horas. Degustamos infinitas variedades de frutas Amazônicas, algumas que sequer sabia que a natureza era capaz de produzir: Tucumã, Sapoti, Abricó, Procoló, Buriti, Cupuaçu, Pupunha, Graviola, Taperebá e por aí vaí. Maeda conversou, conversou e conversou. Perguntou sobre as frutas, o solo da região, palmeiras, cultura em geral. No fim compramos algumas frutas da região para trazer a Sao Paulo e gastamos impressionantes R$ 15,00. As sacolas já estavam pesadíssimas e não dava para carregar mais nada. Tudo muito barato e gostoso.

Sapoti, Cacau e por aí vai. Mercado de Ver-O-Peso

Sapoti, Cacau e por aí vai. Mercado de Ver-O-Peso

Bom, este foi metade do primeiro dia no Ver-o-Peso.
Daqui a pouco venho lhes contar mais sobre Belém.


Cinco verdades que você deve saber sobre a Amazônia

28/06/2009

1) O QUE É A AMAZÔNIA?
Muita gente se confunde aqui. A Amazônia é muito maior que o Amazonas, estado. Geograficamente, é uma ampla região natural da América do Sul, definida pela bacia do rio Amazonas e coberta em grande parte pela maior floresta tropical que este planeta já sonhou em ter. Em termos de rios, a bacia hidrográfica da Amazônia possui afluentes de extrema importância tais como rio Negro, Tapajós e Madeira, sendo que o rio principal é obviamente, o Amazonas. Além do Brasil, o rio Amazonas que nasce na cordilheira dos Andes, serpenteia por outros oito países: Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana Francesa, Peru, Suriname e Venezuela.

Especificamente no Brasil, nossa Amazônia é delimitada por uma área chamada de “Amazônia Legal”, que engloba nove estados brasileiros pertencentes à Bacia amazônica e, conseqüentemente, possuem em seu território trechos da Floresta Amazônica. A Amazônia ou Amazônia Legal, possui 61% do território brasileiro e compreende os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e ainda parte do estado do Maranhão.

Depois desta rápida explicação, você está apto(a) a saber o número: são impressionantes 5.217.423 km² de Amazônia.

Parece bastante né? Pois é, acho que um dia já foi. Veremos no item 2.

2) A AMAZÔNIA É FINITA.
Apesar das dimensões continentais e da magnífica grandeza geográfica, a Amazônia é finita. E lhes digo isso como conhecedor de causa. Durante a Expedição Madeira – Rumo ao Norte passando por quase toda a Amazônia, pudemos ver e documentar o que décadas de devastação fizeram e ainda fazem, às áreas de floresta nativa. Em absolutamente todos os estados que compõe a Amazônia, há em menor ou maior nível, a mão destrutiva do homem. Lugares incríveis, com mata fechada, riachos cristalinos e abundância de vida silvestre se intercalam com vastos campos para criação de gado. Além disso, acompanhamos um triste e crescente ranking de animais silvestres atropelados nas estradas.

Infelizmente isso é real e difícil de reverter. A área de floresta original e preservada é cada vez menor. Este mês comemoramos uma redução drástica no percentual de área desmatada comparada ao mesmo período de 2008. Em maio/2009 por exemplo, a Amazônia perdeu cerca de 123,7 km² de suas florestas – área equivalente a sete vezes a Ilha de Fernando de Noronha, em Pernambuco. Significa uma redução de 89% em relação ao mesmo período do ano passado.

Entenderam a gravidade? Se estamos comemorando a devastação de *apenas* 7 Fernando de Noronha neste mês, imagine o que as duas, três ultimas décadas deixaram na Amazônia. Sinceramente, posso lhe dizer: uma paisagem pouco parecida com as imagens do Fantástico e Globo Repórter de quando era criança e muito mais parecida com o interior de São Paulo.

No entanto, pela monstruosidade da região, ainda existem grandes áreas de floresta nativa. Estas áreas, ainda virgens, são as que devemos mais nos preocupar em preservar. Se continuarmos neste ritmo, em uns 10, 15 anos não haverá mais nada lá. E aí se segurem com as mudanças climáticas, que se intensificarão por todo o mundo.

Cemitério às margens do rio Amazonas

Cemitério às margens do rio Amazonas

3) O QUE DESTRÓI A AMAZÔNIA?
Em três palavras: madeireiras / agroindústria / estradas.

A natureza é sábia. Talvez este seja o motivo de ainda termos a maior floresta tropical da Terra. O solo da Amazônia (acima do Mato Grosso) é conhecidamente pobre em nutrientes, fazendo com que não seja ideal para o plantio de grãos. A Soja que quase dizimou a totalidade das matas e florestas do Mato Grosso, sofre um pouco mais para se estabelecer ali. Mesmo assim, o homem vai tentando dar seu jeito.

Nos últimos anos o principais vetores do desmatamento da Amazônia foram a expansão do cultivo de grãos e principalmente da pecuária, a extração ilegal de madeira, além da melhoria de infra-estrutura de transporte. Estes fatores tem mais ou menos peso dependendo da região. Grandes áreas localizadas sobretudo a leste do Parque Indígena do Xingu, foram convertidas de floresta para campos de soja. Assim, áreas já desmatadas e que eram utilizadas como pastagem para o gado foram substituídas por cultivos agrícolas, criando o incentivo para o desmatamento de novas áreas para a formação de pastos, com o intuito de comportar os rebanhos que foram “desabrigados” pela soja. No cenário mais atual o principal vilão é sem dúvida, a agropecuária.

Historicamente é sabido também que além do progresso, as estradas costumam levar alto grau de destruição aos lugares. Ambientalistas apontam as rodovias como rotas que levam o desmatamento às diferentes regiões da Amazônia. O mapa com os focos de desmatamento mais recentes detectados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) parece comprovar esta teoria: as áreas de devastação se concentram ao redor de estradas como a Transamazônica, a BR 163 (Cuiabá-Santarém) e a BR-364. Por outro lado, vivi na pele o fato de ficar a mercê de transporte fluvial na região (o único meio possível atualmente para chegar em alguns lugares) e particularmente sou a favor de abrir a BR-319 para melhorar o acesso dos locais e inclusive levar algum progresso a região, que sim, se faz necessário. No entanto, acredito que a opção por continuar a estrada foi equivocada. Poderia ser feito investimento em malha férrea, menos prejudicial à natureza, mais barato, ecológico e mais rápido.

4) QUEM DESTRÓI A AMAZÔNIA?
Para colocar de uma maneira simples: eu e você.

Se levarmos em conta apenas o Brasil, os maiores consumidores e de certa forma fomentadores da devastação da Amazônia, são as regiões abaixo do centro e centro-oeste brasileiro. São Paulo encabeça a lista de maior comprador de madeira da região mas não é o único.

Se olharmos pelo panorama mundial, os maiores devastadores são Estados Unidos e Europa, uma vez que a madeira da Amazônia alimenta inúmeras cadeias de vendas de pisos e móveis por lá. Esse é o esquema mais sujo de todos. Uma recente pesquisa feita pelo Observatório Social, pela ONG Repórter Brasil e pelo Papel Social Comunicação, aponta que 70% de toda a madeira comercializada no estado do Pará, maior vendedor de madeira amazônica no Brasil, tem origem ilegal. Essa madeira é “esquentada” dentro de órgãos do governo. Autoridades do MPF (Ministério Público Federal) e do Ibama confirmam o esquema e apontam o envolvimento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente que opera em parceria com madeireiras e empresas de exportação.

Ou seja, enquanto houver gente comprando, haverá gente vendendo. Seja madeira, seja carne, ouro ou qualquer outro tipo de recurso natural.

5) COMO NÓS, QUE NÃO FAZEMOS PARTE DA AMAZÔNIA, PODEMOS AJUDA-LÁ?
Bom, em primeiro lugar, todo esse blá blá blá de a Amazonia é do mundo, é balela. A Amazonia, ao menos a parte que está em nosso país, tem suas fronteiras guardadas pelo Exército Brasileiro e é nossa e de mais ninguém. Porém, devido às suas dimensões, o que ocorre ali acaba de certa forma influenciando boa parte do resto do globo. Nesta conjuntura, precisamos parar de ficar numa postura de espectador (que é tão comum ao povo brasileiro -me incluo nisso-) e começar a fazer algo efetivo para fazer jus ao que é nosso.

Atitudes simples podem ajudar
- Se for reformar ou construir, verifique se a madeira realmente é legalizada. Não deixem que te façam de bobo com um selinho qualquer. Vá atrás da informação quente. Veja se a madeira vem de areas de reflorestamento, se há um programa sério de acompanhamento e garantia de procedência. Melhor, use madeira de demolição: mais limpa, durável (já está bastante seca) e apenas um pouco mais caro.

- Economize energia e busque fontes alternativas (todo mundo sabe do que estou falando). O governo só precisa construir usinas na Amazônia (como a de Jirau e Santo Antonio no rio Madeira), porque há consumo. Tem o objetivo geral de levar desenvolvimento e preparar a região norte, no entanto, boa parte do que for produzido lá, será utilizado como backup para que não tenhamos mais apagões no resto do país. Se as pessoas não consumissem tanto, não seria necessário gerar tanto.

- Agora, quer ajudar realmente a Amazônia? Mesmo? Então esqueça-se da Amazônia e pense no Brasil.
Tudo o que falei anteriormente deve, se muito, ser 20% do que destrói efetivamente a Amazônia. O maior responsável pelos problemas por lá, é sem dúvida, a corrupção. E corrupção em todos os níveis. Governo, empresas e no fim, todos nós. Não adianta lei em cima de lei se nada acontece e os culpados não são punidos. Não adianta programa de certificação de madeira se há envolvimento do IBAMA, empresas de exportação e outros órgãos do governo, esquentando a tora. Não adianta usar transporte público se no dia-a-dia, você faz uso do ‘jeitinho brasileiro’, leva uma vantagenzinha aqui, outra ali. Não adianta sentar a bunda na cadeira e esperar 4 anos passarem de votação em votação enquanto tem gente fazendo sessão secreta no Senado.

Para ajudar a Amazonia, precisamos ajudar o Brasil. Este é um único país, com patrimônio natural e cultural inigualáveis.

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Amazonia Para Sempre


Dia 17 – Após 4 dias navegando no Amazonas…

22/06/2009

Mingalaba pessoal!

Nosso último dia a bordo do Catamarã Rondônia começou cedo.

Acordamos as 05am, exatamente quando o sol começava a despontar no horizonte. Tomamos uma boa dose de café e então fui até o deck superior para algumas fotos. (nota do autor: sou um fotógrafo amador, com uma camera vagabunda, tirando fotos amadoras. No entanto, se alguma coisa é capaz de fazer minhas fotos ficarem melhores, esta coisa é a luz. Prefiro a luz das manhãs e a do fim de tarde. Há uma mágica aí que pode transformar a captação da imagem). Fiquei lá por um bom tempo. Maeda aproveitou esta última manhã para por em prática seu lado de antropólogo, tudo devidamente registrado em sua Moleskine. Segundo o próprio, conversando com as pessoas que estavam acordadas neste ínicio de manhã, conseguiu somar mais duas histórias de vida à sua coleção. Histórias estas, em sua maioria tristes e sofridas mas sempre com um final de superação que tanto caracteriza o povo do norte brasileiro.

Por volta das 09:30 Maeda me chama para registrar a cidade pela qual passávamos. Adorou o nome dela, o que nos motivou a conversar com as pessoas para conhecer um pouco da história deste pequeno município. Curralinho tem por volta de 22.000 habitante e localiza-se na microrregião de furos do Marajó tendo como limites ao norte Breves. Fica cerca de 7 horas de Belém, por barco. A cidade se originou a partir de uma fazenda particular, que cresceu devido ao agrupamento de pessoas ligadas a seus proprietários em decorrência de interesses comerciais. Seu nome vem de “curralzinho”, usado pelos aventureiros portugueses que, com o uso, perdeu o “Z”. Ahhhh… Explicado. :-)

Quando se olha para os lados e percebe que as águas do Amazonas consomem até o horizonte, o que menos se espera é fazer a feira. Ironicamente é uma das coisas que acontece com mais frequência aqui. Por toda parte ribeirinhos vão em suas pequenas voadeiras, levando toda sorte de alimentos para as embarcações que ali navegam. Tivemos banana, maracujá selvagem, vários peixes diferentes, farinha d’agua, camarão seco, castanha do pará, além de um espetacular queijo meia cura, feito pelos próprios locais. Se aproximavam cuidadosamente de nosso catamarã, aguardando o momento certo para atracar. Quando conseguiam, logo começavam a gritar o que vendiam e qual o preço, criava-se um pequeno alvoroço no navio. As pessoas contavam moedas, pediam emprestado, pechinchavam. Tudo tal qual uma verdadeira feira. Numa destas investidas de ribeirinhos, Maeda comprou um bom pedaço de queijo meia-cura que nos alimentou por alguns dias. Como não tínhamos geladeira e o calor era muito forte, optei pela segurança intestinal (como sempre) e comi-o apenas no primeiro dia. Peguei um bom pedaço e coloquei-o no único lugar possível: em cima de uma mala, no chão mesmo. Ao contrário de meus pedidos, Maeda, rústico como é, o comeu durante 4 dias, quando o cheiro de azedo começava a ficar insuportável. De qualquer forma, desta vez tinha razão. Apesar do cheiro, o queijo não estava estragado e portanto, não teve maiores problemas ao come-lo.

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

Queijo feito por ribeirinhos do Amazonas - Foto: Marcos Bonas

No início da tarde passamos por um canal estreito, famoso na região por um espetáculo que eu e Maeda concordamos em classificar como bizarro. Neste canal, o navio precisa navegar mais devagar e redobrar o cuidado. Aqui já há influência da maré do oceano Atântico. Conforme o navio vai sutilmente rasgando o rio, um enxame de ribeirinhos remando suas típicas canoas em sua maioria feitas de árvores, vem chegando por todas as direções, como se fosse um ataque pirata. Grande parte são crianças e em muitas vezes estavam sozinhas remando pelo Amazonas. Fazem alguns barulhos com a boca imitando animais da mata e aproveitam para chamar a atenção de quem está no navio. O script a seguir já está fixado na cabeça das pessoas. Embrulham em sacos plásticos, todo tipo de coisa: alimentos, cobertores, redes, roupas e qualquer outro tipo de objeto que desejam dar como esmola. Olhando de fora, a primeira vista é uma imagem bonita e que realmente impressiona. Os pobres ribeirinhos, fadados a uma vida de dificuldades extremas remam perigosamente em direção à salvação, um lugar onde bondosas pessoas se desapegarão de bens materiais em função de um objetivo maior: o de ajudar o próximo. No entanto, olhando mais de perto, pudemos traçar um paralelo com os semáforos de São Paulo. Muitas vezes, o próprio pai incentiva o filho a ir para o semáforo pedir dinheiro. O garoto vai lá, faz uns malabarismos, ganha um dinheiro que leva para o pai beber pinga. Não estou dizendo que seja exatamente este o caso mas vejam: o ribeirinho do amazonas tem realmente uma vida dura mas não necessariamente tão sofrida. O rio lhe fornece enorme variedade de animais. O quintal de sua casa é a mata que fornece caça, mandioca, arroz, feijão, frutas. O sistema de palafita onde as casas são construídas dá certa segurança quanto ao nível do rio. Ou seja, a visão das pessoas do navio, algumas que ‘até choravam de dó’ está equivocada. Sofrida sim, miserável não.

Casa de ribeirinho, as margens do Amazonas. Foto: Marcos Bonas

Casa típica, construída no sistema de palafita. Foto: Marcos Bonas

Enfim, passamos pelo estreito. O que se via agora era uma monstruosa baía onde o horizonte parecia de infinita água. Literalmente estávamos no mar. Não era possível enxergar as margens e as ondas influenciadas pela maré batiam forte no Catamarã. Chacoalhava de um lado pra outro, muito. Era o sinal que aguardávamos ha 4 dias. Estamos muito próximos de Belém. Aproveitamos para arrumar as malas, despedir dos muitos amigos (acreanos, roraimenses, maranhenses, amazonenses, rondonienses, gaúchos, peruanos e até franceses) e preparar o carro para partida. No fim da tarde avistamos Belém no horizonte. E embora parecesse muito perto, só fomos realmente atracar no porto as 21:30. Como estava tarde para procurar o hotel e o navio ficaria atracado pelas próximas 24 horas, aproveitamos para dormir mais uma noite em nosso Catamarã.


Santarém: embaixo das águas e ainda elegante

17/06/2009

G’day mate!

Chegamos em Santarém, no Pará, por volta de 02PM. Santarém é uma cidade chave para as embarcações. Toneladas de grãos, batata, cebola, até dezenas de motos Dafra –cuja fábrica fica em Manaus– que estavam no porão do navio, precisavam ser descarregados. Com isto, a parada por ali é sempre um pouco mais demorada. Bastou o navio atracar para que um aglomerado de estivadores se apressassem em nossa direção. Vimos uma oportunidade de tempo na qual podíamos desembarcar momentaneamente para conhecer a segunda maior cidade do Pará, além é claro de provar da gastronomia local, numa rápida imersão. Maeda, mais do que rapidamente, foi conversar com o capitão. Voltou e disse: “Podemos ficar tranquilos até as 16:00, hora em que o navio zarpa para continuar a viagem até Belém. Bora lá.”

Logo que descemos, pude sentir o forte sol do Pará tostando minha pele. A leve brisa que insistia em correr pelos ares era quente. Impossível se manter seco; suava em bicas. Mesmo para os locais, mais acostumados com o clima, o calor é forte. Olhei ao redor. Procurava por um táxi para nos levar até o centro da cidade e talvez fazer um pequeno tour por Santarém. Ali mesmo dentro do porto, encontramos Dona Maura. Uma simpática taxista do alto de seus bons 40 anos. Mulher goiana que morava no Pará há mais de 20 anos. Neste dia o movimento estava muito fraco no porto. Conversamos com D. Maura e fechamos um mini pacote turístico por 40,00. Além de dar uma olhada geral na cidade e entender um pouco mais da cultura e situação socio-economica, tinha o objetivo pessoal de fazer Maeda experimentar o Tacacá e a Maniçoba, comidas típicas da região. Maura –que a esta altura ja havia virado nossa amiga–, explicou que normalmente estas iguarias começam a ser servidas a partir das 16:00. Oh-Oh. Neste horario deveríamos estar de volta ao Navio. Por estratégia, achamos melhor manter o passeio pela cidade e quando chegasse perto da hora de ir embora, procuraríamos um lugar que estivesse servindo as comidas. Com um pouco de sorte, daria certo.

Santarém é uma cidade naturalmente linda, bastante organizada e com um povo de tirar o chapeu. Extremamente educados e hospitaleiros. Fomos a igreja Matriz (1761), tomamos um excelente sorvete de frutas típicas (o meu foi de tapioca com açai) da região, paramos um pouco para conversar com as pessoas em uma famosa praça (cujo nome me foge), cheia de tracajás. Andamos até a orla, um espetáculo a parte. Dali mesmo se pode apreciar o encontro das águas entre o rio Tapajós e Amazonas. Infelizmente, como nos explicou Maura e pudemos apurar pouco tempo depois, a maior parte da cidade estava intransitável, literalmente embaixo d’agua. Neste período houve a maior cheia do rio amazonas desde 1927. Embora cite nos meus estudos que este não é um grande problema para os ribeirinhos, nas cidades a situação é inversa. Não há palafitas ali. As pessoas se viravam como podiam. Em boa parte do centro foram construídas plataformas altas de madeira, acima do nível da água, para funcionarem paliativamente como calçadas. Assim, tivemos que deixar alguns dos encantos de Santarém para uma próxima viagem.

Santarém, castigada pelas aguas do Amazonas, na maior cheia desde 1927

Santarém, castigada pelas aguas do Amazonas, na maior cheia desde 1927

Mas nem tudo estava perdido. Ja era cerca de 15:20 e eu começava a me preocupar com a volta ao navio. A regra é: quem não estiver a bordo no momento de partida, fica. Simples assim. Claro que se o navio zarpasse, havia a possibilidade de pagarmos alguem com uma voadeira para nos levar até ele, mas nem de longe isso parecia uma boa idéia (alias, na tranquila cabeça do Maeda, parecia. hehe). Neste momento D. Maura lembrou de um lugar famoso onde começavam a servir Tacacá e Maniçoba um pouco mais cedo. Era a casa de uma senhora, cuja parte da frente havia sido transformada em restaurante. Não se enganem, a transformação que me refiro foi pura e simplesmente colocar algumas mesas de ferro ao lado das plantas da área, para que as pessoas pudessem se sentar e apreciar o rango. Lugar bastante simples e comida caprichada.

Fazia um calor de 38 graus e Maeda logo pediu o Tacacá. Esta típica comida deriva de um tipo de sopa indígena denominada mani poi. É servida em cuias: coloca-se primeiramente um pouco de tucupi e o caldo da pimenta-de-cheiro com tucupi. Acrescenta-se a goma e arranjam-se os ramos do jambu de modo bem distribuído. Colocam-se os camarões e acrescenta-se mais tucupi até quase completar a cuia. “Bota bastante goma aí!”, Maeda disse. “Ah sim, quero bem quente também”, completou. Pobre coitado. Mal sabia o que havia pedido. A goma é feita de mandioca, extremamente consistente, grossa e de gosto forte. O quente, entende-se por quente mesmo (fervendo) além da porção extra de pimenta no tucupi. A cada golada, Maeda suava um pouco mais. Misturava, pegava um bm pedaço de camarão, comia o jambu com as mãos e dava mais um bom gole. Se o próprio tinhoso estivesse ali, estaria se abanando. Ave mãe. Experimentei. Gostei mas achei muito forte. Preferi deixar pro Maeda.

Maeda prova o famoso Tacacá do Pará

Quando enfim terminou o Tacacá, a gloriosa D. Maura disse que não o deixaria partir de Santarém sem conhecer outra típica comida. Desta vez, falamos da Maniçoba, outro prato de origem indígena e conhecido como feijoada paraense. Seu preparo é importantíssimo, uma vez que parte dos ingredientes é venenoso. É feito com as folhas da maniva/mandioca moídas e cozidas, por aproximadamente uma semana (para que se retire da planta o acido cianídrico, que é venenoso), acrescida de carne de porco, carne bovina e outros ingredientes defumados e salgados. Quente também. E cheio de pimenta no tucupi. Minha sensação ao olhar para o Maeda era um misto de dó e graça. Se alguém oferece uma comida a ele, não sabe dizer não. Come até o fim, mesmo que não esteja aguentando. Sua testa parecia derreter de tanto suor. Comeu, comeu e comeu. Valeu a pena. Para ajuda-lo, fui ao bar do lado e comprei 3 cocas geladíssimas. Duas delas o bicho sorveu na hora.

Maniçoba - A feijoada paraense

Pois bem, ja estava na hora de voltar. Agradecemos D. Maura pelo ótimo passeio e principalmente pela agradável companhia de nossa guia por um dia. Chegamos no navio e agora ele era carregado com produtos que iam de Santarém paa Belém. Maeda foi direto pro banheiro, disse que ia tomar banho porque estava muito quente. Abaixei a cabeça, soltei uma gargalhada e concordei. Não o vi pelas 2 horas seguintes. :-)

Como já disse aqui, horário não é o forte do transporte fluvial da região Amazonica. Saímos de Santarém as 19:00, 3 horas depois da previsão inicial. Este foi o resumo do dia.


Dicas: faça sua própria expedição

15/06/2009

Bom dia.

Tenho recebido um sem fim de emails com dúvidas de como proceder, qual trajeto percorrer e sobretudo o que levar, em uma viagem nos moldes da Expedição Madeira. Assim, preparei o post abaixo com dicas fora do ‘lugar comum’, com intuito de fazer sua aventura mais segura e de lhes dar uma solução paliativa para imprevistos que possam aparecer no decorrer da viagem.

O Brasil é um país de dimensões continentais. Bem aqui no nosso quintal temos florestas, desertos, cerrado, vastas planícies, planaltos a perder de vista, mar, montanhas. Muita gente quer viajar pra fora antes mesmo de conhecer nossas riquezas. Meu conselho é: fiquem aqui, peguem um carro, botem o pé na estrada, divirtam-se e mergulhem nas dezenas de culturas de um mesmo país. Para isso, algumas dicas podem ajudar.

1 – Planejamento
Por mais boba que seja sua viagem e há menos que você seja um milionário excentrico ou um hippie sem emprego por convicção, é necessário planejar. Saber as datas de partida e retorno, onde quer chegar, quais os pontos de parada, qual a distância a ser percorrida por dia, o que quer ver. Para a Expedição Madeira, eu criei uma rota-base que continha as principais cidades pelas quais passaríamos para completar o trajeto. Calculei a quilometragem total da viagem (parte seca e parte úmida separadamente), e dividi mais ou menos pela quantidade de dias que tínhamos para a aventura. Esta simples atitude lhe fornece grande ajuda para saber se está atrasado e portanto, deve logo partir dando continuidade a viagem ou se pode ficar mais um pouco. Outro ponto importante é o planejamento financeiro. Você precisa saber exatamente quanto tem para gastar e fazer um controle diário sobre os recursos financeiros. Eu mantive atualizado por todo este tempo a planilha de gastos da Expedição. Cada litro de combustível, cada centavo gasto em hotel, pedágio, comida e presentes iam para lá. Com esta visibilidade, você pode por exemplo, ficar em uma pensão ao invés de hotel ou ainda almoçar em lugares mais simples caso seja necessário alguma economia.

2 – Malas e Backup
É importante ter em mente que imprevistos podem acontecer. Imagindo hipoteticamente algumas situações, você consegue pensar em um plano contingencial e assim, se vier a acontecer, estará preparado para solucionar o problema e prosseguir com a viagem. Ao invés de levar malas especializadas (ex: mala só de toalhas, outra só de sapatos, outra só de roupas) tente levar malas backup, contendo um pouco de tudo que pode precisar. Desta forma, se perder uma mala ou mesmo for furtado, sempre haverá outra com condições totais de lhe atender. Poderá trocar de roupa, se secar, colocar outro sapato tranquilamente. Outra dica valiosa é colocar um saco plástico dentro da mala, de forma que suas roupas fiquem dentro do saco. Isso as manterá impermeabilizadas no caso de chuva ou se caírem n’agua. E também as manterá limpa em casos extremos de estradas de chão onde a terra vermelha vira um fino talco e entra (absurdamente!) por tudo quanto é lugar.

Graças à capacidade premonitória de minha adorável esposa e de sua mãe, não aprendemos esta lição da maneira mais difícil. Em Palmas (Tocantins), duas de nossas malas foram furtadas bem em frente ao palácio do governo. Como elas estavam no padrão de backup, não tivemos maiores problemas do que perder um punhado de roupas (muito) sujas.

3 – Dinheiro
É sempre bom ter dinheiro vivo em mãos. Muitos lugares não aceitam cheques nem cartões. O ideal é pegar uma quantia razoável, algo entre 200,00 e 500,00 e dividi-los em lugares estratégicos. Ex: porta luvas, bolso, mala, com outra pessoa. Assim, se for roubado ou mesmo perde-lo, não ficará sem nada. Uma das coisas que mais nos consumiu recursos financeiros nesta viagem foi o combustível (obviamente). Um tanque de alcool em média saía por 140,00. Sempre pagávamos em dinheiro e conforme ia acabando, parávamos em alguma cidadezinha e sacávamos mais um pouco.

4 – Carro & Combustível
Há lugares onde se anda centenas de quilômetros sem encontrar um posto. Nestes pontos, você está sujeito a um pneu estourado, um motor aquecido ou ao que é mais comum, pane seca. Durante o trajeto da Expedição Madeira encontramos alguns veículos com este problema. Para este caso, a dica é bem simples: mantenha sempre mais de meio tanque. Quando perceber que o combustível está abaixo da metade, pare no próximo posto e complete. Se seu veículo é flex, em alguns lugares recomendo abastecer com gasolina. A autonomia é muito maior que a do alcool e pode lhe render preciosos quilômetros a mais em caso de não encontrar um posto. Outro aspecto que se deve levar em consideração é a situação atual do carro. As estradas podem ser duras e por mais que se planeje, não dá pra saber exatamente o que vem pela frente. Por duas vezes, a situação das estradas informada pelo Guia estavam incorretas. Na primeira dizia que era estrada pavimentada quando na verdade era um torrão de terra esburacada. Na segunda, dizia que a estrada estava em péssima conservação e quando chegamos, era mais tapete que a Castelo Branco. Portanto, a manutenção deve estar em dia para qualquer tipo de terreno, filtros e óleo novos, freios revisados, estepe em boas condições de uso (se possível mais de um), motor e cambio ok.

5 – Mapas e noções de localização
É imprescindível sua utilização. Para a Expedição Madeira levamos dois: um detalhando todas as rodovias do Brasil, rotas alternativas, condições, postos de polícia, etc. Outro que também mostrava as estradas mas detalhava a hidrografia do país. Por ali acompanhamos toda a parte úmida da viagem. Cada paraná (rio pequeno), cada curva, cada pequeno afluente do Madeira ou Amazonas estavam esmiuçados ali. Com a ajuda do GPS pegávamos as coordenadas e encontrávamos no mapa nossa exata localização. Com isso pudemos fazer uma média histórica e saber por exemplo, quanto tempo de rio Amazonas tínhamos até Manaus, navegando a 16 KM / hora. Outra ajuda sem tamanho do uso de mapas é garantir que se está indo para a direção correta. Por vezes não há muitas sinalizações nas estradas (principalmente as estaduais e municipais), o que pode gerar uma certa ansiedade em saber se está ou não no caminho certo. Olhando no mapa e consultando a localização do sol neste momento, é possível ter indícios se está ou não indo no rumo certo.

6 – Clima e condiçoes
Se você vai navegar em rios, é melhor se manter atento às épocas de cheia e de seca. Fomos para região Amazônica em maio, no fim das cheias. Com o rio transbordando, a navegação é mais tranquila e rápida (no caso de descer o rio). Mais tranquila porque as pedras e bancos de areia do Madeira e Amazonas são tomados pela água, diminuindo bastante o risco de bater nestes perigos naturais. Apenas oara ilustrar: em época de seca ha capitães que não navegam pelo Madeira. Esperam até o próximo ano, quando as chuvas voltam, tornando a navegação mais segura. Mais rápida porque ao descer os rios, contamos com a força das correntezas empurrando as embarcaçoes. Uma viagem de Porto Velho a Manaus em época de cheia, leva de 3 a 4 dias. Em época de rio baixo, de 5 a 7 dias. Daí podemos ter uma idéia da importância das chuvas na região.

7 – Cobertores e afins
Mais uma vez a astúcia de minha adorável esposa e sua mãe se faz presente. Nunca imaginaria que numa região tão quente pudesse fazer tanto frio a noite. Quando vi o cobertor (que ela estrategicamente colocou escondido na caçamba da camionete) logo brinquei com o Maeda. “Estamos numa das regiões mais quentes do Brasil e mandaram pra gente cobertores. Só pode ser piada”, disse. Piada que logo se tornou pesadelo. Bem na primeira noite a bordo do empurrador Paulão e navegando pelo Madeira, percebi que a natureza pode ser cruel. Um sol e calor de rachar a cuca durante o dia. Vento frio e carregado de umidade a noite. A temperatura variava de 36 a 16 graus em menos de 24 horas. Me encolhi, puxei o cobertor e agradeci mentalmente minha amada. 8)

8 – Remédios
Este item é sem dúvida, um dos mais importantes a ser levado em conta numa viagem como esta. Bobagens de nosso cotidiano como gripes, febre, um pequeno machucado, podem acabar com toda a aventura. Para isso, fiz um post específico, abrangendo situações que podem colocar nossa saúde em risco. Por favor, leiam-o em http://expedicaomadeira.wordpress.com/2009/04/08/sobrevivendo-as-intemperies/

Existem mais alguns pontos que gostaria de tratar aqui mas infelizmente meu tempo está escasso. Será assunto de algum próximo post.

Pessoal, obrigado novamente e podem continuar mandando os emails para exmadeira@gmail.com.

Respondo a todos com o maior prazer.